Juremir Machado da Silva

De voto na ponta dos dedos

Na boca da urna?

 

      Começa que urna não tem mais boca. Tudo ficou mais ágil e menos romântico. O resto vem por acréscimo. Cheguei a cobrir uma eleição daquelas em que os eleitores anotavam recados nas cédulas. A contagem dos votos era como a preparação de uma festa de casamento de antigamente ou como o velório de um bisavô. Varavam-se algumas noites. Havia muita gente reunida, cada um contava uma história, não faltava um bate-boca, uma revelação, uma fofoca, uma desconfiança. Ao final, alguns aplaudiam, outros derramavam algumas lágrimas e iam todos embora com a sensação de ter participado de uma boa farra.

Conta-se que numa eleição perdida na memória do tempo, num lugar ao sul de Palomas, todas as cédulas de um candidato importante apareceram com chifres desenhados. Era uma época machista. Matava-se pela honra. A justiça absolvia o assassino e aplicava, de certo modo, alguma pena póstuma à esposa. O homem interpelou um dos eleitores, que lhe devia o voto por razões pessoais intransferíveis de cabresto.

– O que significa esse par de chifres na sua cédula?

– Que o senhor é grande criador de gado, ora.

O candidato ofendido teria mandado castrar o outro para mostrar que sabia mesmo lidar com bois. Não é uma história bonita. Pode ser considerada de mau gosto. Disputas eleitorais não primam pela etiqueta. Soube que no interior ainda sai tiro. Um candidato teria levado uma surra e não saído mais de casa. Mandou a explicação:

– Estou retirado revisando o programa da nossa chapa.

O presente é que conta. Deixemos de nostalgia ou vem a morte ou coisa parecida e nos leva sem votar. Em quem? Façam as suas apostas. Não tenho provas, mas me sobram convicções de que as escolhas estão feitas há alguns dias. O tempo de televisão continua sendo rei. Se dependesse de mim – ninguém teria essa má ideia – não haveria marketing. Nada de abraçar criancinhas, de distribuir sorrisos ou de aparecer contemplando o por do sol com olhos sonhadores. Os candidatos só poderiam falar das suas propostas. Sobraria tempo.

O regulamento da competição poderia ser mais cruel. Depois da terceira vez sem alcançar dois por cento dos votos, o candidato seria rebaixado para a segunda divisão. Nos debates, os chamados nanicos seriam avaliados pela capacidade de jogar cascas de banana sob os pés dos grandes. Quem não fizesse isso, estaria excluído dos encontros. Nada pior para a democracia do que o candidato sem chances que se comporta como se estivesse com medo de ser repreendido pela direção.

Com as novas regras, a campanha ficou meio virtual. A sociedade não quer saber mais do “lixo” da democracia. Nada de cartazes colados por toda parte. Não me convenci das virtudes dessa medida. Democracia rima com certa desordem passageira e com algum grau momentâneo de “sujeira”. Do jeito que vai as campanhas serão como um edifício que proíbe o uso do salão de festas para não se desgastar com barulho.

O que teremos no segundo turno em Porto Alegre? Dois candidatos de esquerda, dois de direita ou um de esquerda e outro de direita? Dois de esquerda é uma hipótese tão provável quanto o Inter escapar do rebaixamento. Surpresas acontecem. Pesquisas tomaram providências para não errar. Aumentaram a margem de erro para 5%. O candidato tem 15 pontos, que podem ser dez ou 20. É o que se pode chamar, sem medo de errar, de generosa margem de segurança. Leva tudo. Tenho a impressão de que o “voto útil” vai pegar um dos candidatos de esquerda de maneira a manter o outro no segundo turno. Quem será?

*

Em 64 A.C., em Roma, Quintus Tulluis Cícero, irmão mais novo do grande Cícero, publicou, para ajudar o mano candidato, um “Pequeno manual de campanha eleitoral”. Orientava os postulantes a cargos eletivos a mentir, difamar, fazer promessas que não pudessem cumprir, bajular, adaptar o discurso a cada possível eleitor e centrar tudo no que hoje se chama de marketing: “Você deve pensar constantemente em publicidade”, orientava o marqueteiro. Nunca um livro, que talvez tenha sido lido por poucos, influenciou tanta gente. Se tivesse vivido no Brasil atual, Quintus seria acusado de dizer o óbvio. Segundo ele, “a política é cheia de engodo, trapaça e traição”.

Não seria Eduardo Cunha a desmenti-lo: “Você não precisa efetivamente levar seus adversários a juízo sob a acusação de corrupção: apenas faça-os saber que você está disposto a fazê-lo. O medo funciona melhor do que um processo real”. As delações não eram premiadas. Vencia, naquela época, quem tinha mais lábia. Nem sempre funciona, mas apavora: “Não perca nenhuma oportunidade de lembrar a todos que lhe devem algo que eles precisam retribuir apoiando você”. Balzac já dizia aos críticos: “Bata, você será temido”.

O principal conselho de Quintus era singelo: para vencer, aproxime-se das pessoas influentes e manipule a massa mexendo com as suas emoções. Para ele, o eleitor não era um ser racional. Como se pode ver, a história nos ensina muita coisa, especialmente o pior.