Vivemos no mundo dos aplicativos. O que nos falta, às vezes, é aplicação. Especialmente para seguir os dados de aplicativos de saúde. Há pouco tempo essa palavra não fazia parte dos nossos costumes. Tem aplicativo para tudo. Um deles calcula quanto tempo pode durar uma relação. Um casal há 62 anos junto estava interessado. Há um culto ao aplicativo. Peguemos o caso dos transportes urbanos pagos. Podemos andar de ônibus, que é a minha preferência, mais barato e sem precisar falar do tempo com ninguém, de metrô, quando tem, de táxi e de aplicativos. Eu uso todos. Sem preconceitos nem privilégios. Depende de circunstâncias, distâncias e outros fatores. O cara que cultua aplicativo não suporta essa indistinção. Como pode alguém usar táxi em vez de uber ou cabify? Ele toma isso como sinal de atraso tecnológico.
O que significa atraso moral e se traduz numa expressão:
– Coisa de velho.
A religião dos aplicativos é predicadora. Quer convencer todo mundo da sua superioridade. Para isso, recorre à racionalidade e à emoção. Na racionalidade, explora preço, qualidade do serviço e dos carros. Preço pode ser importante para quem usa muito e a partir de certo valor. Uso pouco. Não percebo muito a diferença no serviço. Marcas e anos de carros não me sensibilizam. Sou povão. O papo dos motoristas de aplicativos tende a me enfadar mais que o dos taxistas. É como conversa de turista. Nada mais enfadonho do que relato de viagem. O turista quer sempre convencer o interlocutor a adotar a sua escolha, o seu itinerário, o seu destino. Pior é quando mostra fotos. Pela emoção, o fanático por aplicativos fala em experiência de vida.
Aplicativo não é ferramenta. É ideologia. Só tem dois lados: contra ou a favor. Na leitura de “Homo Deus”, do historiador israelense Yuval Noah Harari, descobri o aplicativo “Deadline”. Fiquei impactado. Ainda não tive coragem de usar. Basta fornecer ao aplicativo todos os nossos dados de saúde e a nossa idade e ele calcula quanto tempos nos resta de vida. Pode errar. Por uma semana. O aplicativo instala um reloginho no celular do usuário com contagem regressiva. Emocionante. Racional. Uma experiência de vida. O programa aconselha procurar um psicólogo antes de obter o resultado. Ouvi isto:
– Vais usar o Deadline?
– Não.
– Por quê?
– É como sexo de criança. Prefiro não estragar a surpresa.
Não há mais surpresas. Tudo se torna transparente. Pode-se saber de antemão sexo de filho. O nascimento é previsto conforme calendário pessoal. Ivete Sangalo marcou para o carnaval. A data da morte pode ser antecipada por um aplicativo implacável. É como aposentadoria complementar. Começa a receber aos 60 anos e durante 169 meses. Por que 169? É o tempo médio que se leva para morrer depois de se tornar sexagenário. Não tem mistério. A ciência e a tecnologia entregam tudo. Viver não é mais muito perigoso, salvo no Rio de Janeiro. Em breve haverá um aplicativo prevendo possibilidade e trajetória de bala perdida. Usarei o Deadline? Não sei. Descubro virtudes na ignorância.