Juremir Machado da Silva

Depoimento de um preso político e torturado

Depoimento de um preso político e torturado

Prezado Juremir.

Se você me permite, penso que são, no mínimo, demagógicas e sem as mínimas condições de prosperar, as “supostas” iniciativas da Ministra Maria do Rosário com o objetivo de abrir os arquivos da ditadura militar e de criar uma “Comissão da Verdade” à lá África do Sul. É possível que ela tenha, com isso, tentado dar uma satisfação à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que acabou de condenar o Brasil pelos crimes cometidos pela ditadura militar no Araguaia.

Não acredito que a deputada Maria do Rosário, depois de 08 anos de mandato nos dois governos Lula, sem qualquer pronunciamento demarcatório de sua posição a respeito dessa questão, assim sem mais, tenha adquirido os poderes de super-ministra para executar o que disse. Quem de fato manda no pedaço, é o super Jobim. O resto é conversa.

Em tua coluna, destacas, com acerto, a manutenção do ministro Nelson Jobim, avalista dos torturadores desse país. Infelizmente, a presidente Dilma, vítima direta, como milhares de brasileiros, das torturas e sevícias do período da ditadura, em 2009, quando da decisão do STF de reafirmar que os torturadores estavam protegidos pela Lei da Anistia, nada fez, para contrapor-se. Ao contrário, afirmou não ser revanchista.

O problema não é esse. Nós não somos “revanchistas”. Nós, ex-presos e torturados pela ditadura, queremos JUSTIÇA. Eu fui preso, torturado, julgado, condenado e cumpri pena de prisão, pelas leis da ditadura. Creio que por direito de justiça básica e elementar, os torturadores devem ser julgados e sentenciados, com as leis de nossa sociedade atual.

Por fim, espero estar absolutamente equivocado e que o governo Dilma tenha a decência de proceder imediatamente a abertura dos arquivos da ditadura, e que os torturadores venham à luz do dia para serem vistos pela sociedade e por ela julgados.

Cordialmente

Lucio Barcelos – médico sanitarista