Juremir Machado da Silva

Desabafos de leitor e cálculos de escritor



Ando com dificuldade para responder aos meus leitores, que, pelos meus cálculos mais recentes, já chegam a 37, uns três a menos do que meus principais concorrentes. É muita gente. Acabo sendo indelicado. Recebo muitos comentários interessantes. Levo pau e ganho muitos elogios. A proporção é favorável a mim: 9 a 1. Esta semana, chegou um e-mail que me fez refletir ainda mais sobre um assunto que me obceca: o preço dos livros. Foi depois de uma coluna sobre a intenção da presidente Dilma Rousseff de fomentar a publicação de livros a R$ 10, valor que considero, por experiência, ideal e mágico.

A professora Mara Cindia Destri desabafava comigo: “Muito legal teu artigo. Vamos torcer para que seja realmente verdadeira a intenção da  Presidente. Acho bem pago dez reais cada livro. Sou professora de Português e Literatura e sei o quanto é difícil  fazer um aluno comprar um livro. No mês de agosto tivemos a  Jornada de Literatura e a Jornadinha, em Passo Fundo. Moro em Sarandi, e levamos nossos alunos. Qual foi a decepção: levaram R$10,00 para comprar um livro e  autografá-lo. Não havia UM livro com esse preço. Te confesso que foi uma grande frustação por parte dos professores e dos alunos. Eles voltaram para casa um pouco mais tristes, embora o evento seja sem dúvida grandioso. Participo há trinta anos das Jornadas Literárias de Passo Fundo. Um abraço e vamos torcer para que na próxima Jornada cada aluno possa comprar o seu livro”. Lição para editores.

Passo as noites examinando a composição do preço dos livros. Funciona assim. O editor faz o livro. Paga editoração, capa, impressão e todo o funcionamento da sua empresa. Normalmente multiplica por seis ou sete os custos para fixar o preço de capa. Gastou R$ 8 por unidade. Multiplica por seis. Fixa o preço de capa em R$ 48. Vamos arredondar para R$ 50. Repassa os livros para o distribuidor com 50% de desconto. Ganha R$ 25. Paga 10% ao autor: R$ 5. Recupera os R$ 8 unitários da produção. Lucra R$ 12. Cobre outros gastos. Sobram R$ 10. O distribuidor repassa para a livraria com 30% de desconto. Comprou por R$ 25. Revende por R$ 35. Fatura R$ 10. Tem seus gastos de funcionamento, armazenamento e transporte. A livraria comprou por R$ 35. Vende ao leitor pelos R$ 50 fixados pelo editor como preço de capa. Nesse exemplo imaginário, o editor ganha R$ 20, o livreiro ganha R$ 15, o distribuidor ganha R$ 10 e o autor fica com R$ 5. Se for descontar o que gastou para viver durante a redação, desiste. O funcionamento da cadeia é variável. O distribuidor pode obter mais descontos do editor ou dar menos à livraria. Só o autor não pode esperar mais.

Em todos os casos quem ganha menos, ou nada, é o autor. Não corre riscos. Entra apenas com o seu trabalho de criação. Quem perde, com tantos intermediários, é o leitor. Na Feira do Livro, em vez de dar mais descontos, os editores dão menos, pois, com seus estandes na praça, fazem venda direta ao consumidor, ao qual dão 20%. No exemplo do livro de R$ 50, vendem-no por R$ 40. Pagam os 10% do autor, R$ 5, e ficam com R$ 35. São R$ 15 a mais do que no fluxo normal da cadeia. A questão é: como repassar aos leitores os descontos economizados com os intermediários sem lhes fazer concorrência desleal? Afinal, são os parceiros do resto do ano. Um jeito é fazer livros venda na Feira antes de entrar na cadeia.
Outro, é aceitar o avanço tecnológico e parar de gastar papel.

Baudeilaire, Borges, Nietzsche e Mencken certamente não precisariam de papel se escrevessem hoje.

O twitter liquida qualquer ilusão dos frasistas bissextos que lamentavam não ter um meio de divulgação.

Os blogs acabam com as ilusões dos contistas e dos cronistas que só não emplacavam por falta de espaço.

A internet sepulta a ideia da falta de espaço para a grande reportagem.

Nunca foi tão fácil publicar.

Até o editor está dispensado.

Só falta ao escritor ter algo para dizer e uma forma interessante.

Será que o livro impresso é a última ilusão legitimadora do escritor medíocre?

De repente, para ser de fato escritor, o sujeito precisa parar de publicar (em papel).

Quem sabe!