Descoberta carioca
Há algo de muito estranho acontecendo.
Estou até assustado.
Madonna terminou seu namoro com Jesus Luz.
É a treva.
Como vai ser a nossa vida depois disso?
O que nos restará a fazer?
Como ficará nosso orgulho nacional?
O namoro da tia Mad com o nosso garotinho era motivo de regozijo entre nós. Esperemos que a notícia seja falsa. Tomara que tudo isso não passe de fofoca da mídia.
O problema é que eles não teriam assunto para conversar. Depois de terem liquidado um papo erudito sobre a cabala, teriam ficado mudos e esgotados. É o que dá não gostar de futebol. Nem de bingo. Nem ver novela.
Já vi gente conversar sobre cabala. É terrivelmente hermético e chato. Comigo, não daria para meio jantar.
Ah, se Jesus Luz tivesse lido, digamos, um clássico co o O Código da Vinci! Ou as obras completas do mago Paulo Coelho. Ainda estaria na cama com Madonna.
Jesus poderia ter tentado explicar a diferença entre o esquema 3-5-2 e o 4-4-2 para ela. A relação duraria, pelo menos, mais oito meses. Depois, era só explicar a regra do impedimento. Mais sete meses. A vida é simples quando se tem o futebol como fonte de conversação.
É que falar de futebol em inglês deve ser duro.
Ainda mais que o negócio de Jesus era outro.
Era só faturar como jogador de futebol.
Por outro lado, o nosso presidente do STF declarou que essa história de lentidão do judiciário é mito.
Também é mito que se fuma maconha no meio da multidão nas praias cariocas. Aquele cheiro é ilusão.
Nada contra. Nem a favor. Pura constatação.
Também é mito que os estrangeiros ficam loucos vendo nossas mulheres tão maravilhosas e sensuais nas praias.
Já as autoridades cariocas inventaram um sistema altamente original para garantir a paz nas favelas. E não é mito. Longe disso. Vejam vocês mesmos. É um sistema tão novo, revolucionário e eficaz que será exportado para o mundo inteiro. Olheiros estão chegando de todas as partes do planeta para conferir a novidade e tentar copiá-la.
O sistema, implantado pelos especialistas do governo de Sérgio Cabral, consiste em – pasmem, delirem, espantem-se, ponham as mãos na cabeça – colocar polícia nos morros. Isso mesmo: postos policiais nos morros.
Toda medida genial precisa ser simples.
Mais simples do que essa impossível.
Essa tropa permanente ganhou um nome: Polícia Pacificadora. Nada como um bom rótulo para mudar as coisas. Agora, entre nós, como ainda não se tinha pensado nisso? Como é que uma ideia tão espetacular não vinha?
Assistentes do governador e do prefeito, pilotando uma parafernália tecnológica, explicam as particularidades do sistema, algo inimaginável e absolutamente complexo. A explicação começa assim: decidimos fixar grupos de policiais em pontos sensíveis.
Ah, bom?
Os ouvintes ficam estarrecidos e exclamam:
Genial, “fantastic”, “extraordinaire”, duca!
Nos morros, os moradores narram a experiência:
– Quando os bandidos tentam agir, a polícia impede. É algo legal demais, bacana mesmo. Nunca pensamos que pudesse funcionar tão bem. Até os tiroteios pararam.
Uma senhora, fascinada, conta:
– Nunca vi isso antes. A polícia nos protege dos bandidos. Antes, era o contrário. Estou maravilhada.
Nas praias, policiais impedem os arrastões.
Um turista comenta:
– Estou perplexo. Chega a dar tédio. Tem policial para todo lado. E eles, além de vibrar com os gols do Flu e do Fla, agem. É só chamar que eles aparecem. Tem algo errado. Será que é por causa da copa do mundo na África?
Houve um ataque a banco em Ipanema: 200 baratas aterrorizaram os clientes de uma agência. É novidade.
No morro Dona Marta o bandido de metralhadora era apenas um ator de Tropa de elite 2. É um novo perigo.
É verdade que teve arrastão na Barra da Tijuca. Mas só durou duas horas. Depois, a polícia chegou.
C’est la vie.
O pôr-do-sol, com barquinho azul cortando a imensa bola vermelha caindo ao lado do morro Dois Irmãos e fundo musical homônimo direto da velha Bossa Nova, foi atrapalhado no Arpoador pela entrada no mar, com um buquê para Iemanjá, da atriz Cristiane Torloni. Muita gente desistiu do astro natural para tietar a estrela artificial. Questão de prioridade e de ibope. Quando os aplausos explodiram, já não se sabia para quem era.
Ser carioca é assim: emoções permanentes.