Juremir Machado da Silva

Desejo, culpa e morte em Almodóvar

Quando a crítica se esparrama em elogios a um filme, costumo não gostar. Não faço isso por implicância. Simplesmente meus gostos nem sempre coincidem com o “bom gosto” dominante na seleta sociedade dos cinéfilos detentores de medidas “precisas” para julgar e condenar. O cinema de Pedro Almodóvar, cujos filmes jamais perco, sempre me parece de um barroquismo excessivo. Evidentemente que, como dizia Eugenio D’Ors, o barroco é a “pérola rugosa”, um excesso por excelência ou definição. A crítica de “bom gosto” vem detonando o filme em cartaz de Almodóvar: Julieta. Fui ver. De fato, não tem o estilo do cineasta. Não chega a ser uma obra-prima.

Mas é muito bom.

A partir de três narrativas de Alice Munro, o filme, uma história redondinha e bem amarrada na qual tudo se encaixa, ocupa-se de sofrimento, culpa e oportunidades amorosas que sempre surgem em torno da doença e da morte. Não contarei tudo para não ser executado em praça pública por crime de spoiler. É um crime novo. Quem se importava com isso antigamente? Essa palavra, antigamente, começa a fazer sentido quando aparece o primeiro fio branco em nossos cabelos antes tão escuros ou quando já não sabemos quem era o centroavante do Inter em 1975. Confesso que nunca deixo de ver um filme por saber toda a história. Aliás, só vou depois de saber muito sobre a obra.

O interessante nesse filme sobre mulheres é que cada uma parece condenar na outra aquilo que também faz. A mãe que sofre com o desaparecimento da filha é a mesma que jamais visita o pai. A mulher que se envolve com um homem cuja esposa está em coma é a mesma que condena o pai pelo seu envolvimento com a cuidadora da sua companheira. Cada personagem experimenta a sua culpa, mas não deixa de julgar e condenar alguém. O homem que morre no mar, depois de uma briga com a mulher, espalha uma rede de sentimentos de culpa.

O espectador cai na rede. Esquece a parte dele nos dramas em jogo.

Alguns críticos acham que o diretor “perdeu a mão”, cedeu a interesses comerciais não revelados ou está “contido demais” em Julieta. Almodóvar, no entanto, sem se afastar do melodrama, parece brincar com os mecanismos psicológicos que nos manipulam. Mostra, com relativa facilidade, como nos deixamos dominar por esquemas simples de interpretação dos acontecimentos e de distribuição de responsabilidades. A primeira culpa da personagem feminina principal é não ter aceitado conversar com um desconhecido num trem pouco antes de o sujeito se suicidar. Como poderia saber? Por que o faria?

Tudo isso desaparece das nossas telas quando a culpa entra em cena.

Pedro Almodóvar tem consciência do que realizou: “Este é um filme de mulheres imperfeitas, mas defensáveis, como são vocês, como somos todos”. Nada mais justo. A bilheteria, porém, não tem correspondido às expectativas dos produtores. Cada vez mais, as pessoas querem diferença e fantasia. O cineasta, em Julieta, oferece reflexão, cotidiano, senso comum, alguma estranheza e elementos para uma leitura dos dispositivos que regulam nossas negociações com os fatos que nos ultrapassam e não dependem de nós, embora tenhamos a peculiar tendência de pensar que sempre somos responsáveis por eles.

Quando um autor precisa explicar a sua obra, algo deu errado. Mais errado ainda quando o criador tem certa razão: “Tentei ser o menos retórico possível. A contenção me acompanhava porque decidi que esse era o modo de contar esta história, que não é um melodrama, mas um drama seco”. Sim, um drama seco. Mas, mesmo assim, melodramático. Digamos que se trata de um melodrama seco, contido, preciso.

E é essa, contrariando os especialistas, justamente a sua grande força.

Ao jornal El País, Pedro Almodóvar, que filmou Julieta depois de uma cirurgia, abriu seu coração barroco: “Ainda vão me perguntar mil vezes sobre o universo feminino e direi que, na verdade, não é nada tão excepcional. Não são tão difíceis como pensam, embora sejam misteriosas o bastante para que eu as transforme num excelente sujeito dramático. Vivemos rodeados de mulheres, de mães, irmãs, de esposas. Trata-se de escutar um pouco o que acontece ao nosso redor e qualquer um pode ter um universo feminino como o meu”. Perfeito.

Considerado um homem complicado ou complexo demais, ou seja, chato, o cineasta tenta ser claro sobre si mesmo: “Não sou tão especial. O problema, e falo sobretudo de Hollywood, é que a indústria do cinema não permite que se façam filmes de mulheres. Eu sou dono de meus filmes e por isso decido que meu protagonista será uma mulher como mais de 50 anos. O mais terrível é que a maioria dos roteiristas não se dá conta de que existem muitas mulheres entre 50 e 60 anos com as histórias mais maravilhosas que se podem contar”.

Em Julieta, Pedro Almodóvar uniu desejo, culpa e morte com perfeição.

Melhor, com a imperfeição que caracteriza as coisas que acontecem.