Desgraças do Haiti
O cônsul do Haiti no Brasil é um idiota.
Sei que não é o momento mais apropriado para ofender o representante de um povo que está afundado na tragédia. Talvez ele esteja muito abalado pelos fatos.
Mas o homem fez por merecer.
Na primeira oportunidade, cuspiu uma salada preconceituosa e egocêntrica para os jornalistas.
George Samuel Antoine acha que o terremoto que destruiu a capital do seu país está sendo “uma boa”.
Ele deve ser um discípulo de Cândido, aquele personagem de Voltaire que sempre encontrava o lado positivo das coisas e via o mundo pelo avesso. O nariz, por exemplo, teria sido inventado para seguros os óculos.
O critério de avaliação do diplomata é universal.
A visibilidade.
A exposição na mídia.
A glória efêmera dos tubos catódicos.
A fama.
Pelo jeito, o cidadão confundiu a realidade com um “reality-show”. Deve andar vendo demais certos programas trágicos em exibição na televisão brasileira.
Aposto que ele passa os dias escrevendo poesia.
Diplomatas adoram aparecer e fazer poesia.
Segundo Antoine, graças ao terremoto, eles estão sendo conhecidos por aqui. É isso aí. Sem tirar nem pôr. Foi isso que ele falou. A desgraça como preço da fama. Milhares de morte por algumas entrevistas na tevê.
Antoine tem seus amuletos em cima da mesa para atrair energias positivas. Precisa de um para atrair inteligência. Só que é mais difícil. Mesmo assim, tem uma teoria bastante original para explicar a tragédia:
O terremoto deve ter sido provocado por macumba.
Faz sentido. Quer dizer, deveria fazer.
Teve outro sujeito que explicou o mesmo terremoto como uma punição divina por causa de um pacto com o diabo. Ainda estamos certamente longe do ano 2010.
Antoine esbanjou conhecimentos sociológicos:
– O africano tem em si macumba.
Disse mais:
– Todo lugar onde tem africano ta f...
Não há como chamá-lo de volta ao país.
Vai ficar por aqui.
Ah, ele não sabia que estava sendo gravado.
Mas deve ter gostado.
Afinal, ficou conhecido.