Juremir Machado da Silva

Diálogos impertinentes e instrutivos

Chego na rodoviária de Porto Alegre.

Deixo uma caixa de livros com o carregador.

Ele me pergunta se pode ficar lendo um enquanto me espera.

Sugiro História regional da infâmia.

Vou até o balcão da Planalto.

Explico que perdi a passagem.

Conto que a adquiri com uma requisição da UFSM.

O funcionário, gentil, fala assim:

– O senhor perdeu a passagem?

– Perdi.

– Sabe onde ela está?

– Como?

– Sabe onde está a passagem?

– Se soubesse, ela não estaria perdida.

– Então, não podemos fazer nada.

Insisto.

Ele chama o chefe.

O superior é calmo. Diz assim:

– Podemos resolver isso.

– Como?

– O senhor compra outra passagem e eu o coloco no ônibus.

– Posso comprar outra passagem e pegar o ônibus sem precisar da sua ajuda – respondo.

– Então faça isso.

Tirei o chapéu para a lógica implacável dos dois homens.

– Na Ouro e Prata não é assim – digo para implicar, acusando a derrota.

*

Vou ao guichê.

Peço a poltrona 7.

– Já está ocupada – diz a moça.

– Eu sei.

– Sabe?

– Sim, por mim.

– Perdeu?

– Perdi. Quero comprá-la novamente.

– Não posso vender. Já está vendida.

•

Quando reencontro o carregador, ele me diz:

– Posso terminar esta página?

•

Aproveito para ir retirar na Ouro e Prata minha passagem de volta de São Borja para Porto Alegre na semana seguinte.

Irei de ônibus.

Chego no balcão e, diante de três homens, peço a passagem.

O do meio, que me olha, não fala.

O lado, que não me olha, fala comigo.

Sinto como se estivesse numa alucinação.

O homem só tem passagem de ida para mim.

Só quero a de volta.

A ordem de emissão da passagem tem dois nomes, o meu e o de Teddy Correia.

O homem explica que só pode entregar as duas passagems ao mesmo tempo.

Digo que não sou casado com Teddy, que não posso ir junto com ele pegar a passagem.

O homem responde que nada pode fazer. Ou dois juntos ou nada.

Além disso, só tem passagem de ida para mim.

Preparo-me para dizer que na Planalto seria diferente.

Lembro-me da conversa de dez minutos antes e fecho a boca.

Se for preciso, ligo para o Teddy.

Mas não me caso com ele.

•

Acordo num hotel em Santa Maria.

Desço para o café.

Encontro, para a minha surpresa, sentado diante de um suco e de um prato de frutas, meu velho amigo Ernildo Stein.

O professor Stein é um dos maiores especialistas mundiais na obra do filósofo alemão Martin Heidegger.

Um erudito, um mestre da conversação.

Tomamos café juntos.

Falamos de Heidegger.

Ele me conta que Heidegger teve cinco amantes ao mesmo tempo.

Escrevia cartas para a mulher dele, que estava a par de tudo, e para as amantes.

Em algum momento, a mulher queixou-se.

Ele, numa missiva, lembrou-a de que o filho Hermann não era dele, mas do amante da esposa.

A queixa terminou ali.

Perguntei-lhe sobre as relações de Heidegger com o nazismo.

Contou-me que o grande Herbert Marcuse, ex-aluno de Heidegger, mandou chocolates para o mestre, depois do fim da II Guerra Mundial, com uma observação irônica:

– Pode distribuí-los, mas menos para nazistas.

Heidegger teria respondido:

– Uma coisa é falar de um movimento no seu começo e outra depois que ele já causou estrago.

Chega o meu anfitrião. Deixo Stein entregue ao seu café. É um homem fascinante.

Nada melhor do que falar sobre Heidegger num café da manhã de hotel.

Aquilo me mobilizou. Depois da palestra, pedi ao motorista que tomasse outro caminho para Agudo.

Queria passar sobre o rio Soturno.

•

Almoço em Santa Maria, no bom e velho Augusto, com Pedro Brum.

Ele era narrador de futebol.

Virou especialista em literatura.

Ele me conta histórias de Tupanciretã.

Raul Bopp fugiu a cavalo, aos 16 anos de idade, para São Borja.

Vendeu o matugo na fronteira e passou para a Argentina.

Fui ao Paraguai.

Acabou em São Paulo.

Conheceu os modernistas.

Serpenteando na vida escreveu Cobra Norato.

Conto-lhe de um amigo de Tupanciretã que mudou de nome.

Ele me fala de Aureliano de Figueiredo Pinto, médico, que largou vida política importante em Porto Alegre e foi morar em Santiago, onde construiu um galpão no fundo do pátio.

Levantava de madrugada, fazia fogo de chão e mateava.

Escrevia obra-primas que não publicava.

Gosto da ideia.

É borgiana.

Pedro me fala de um petebista de Tupanciretã que colecionou 30 mil caixinhas de fósforo.

A minha memória afetiva fala.

Fósforos Paraná.

Caixinhas com pássaros. Nunca esqueci o pintassilgo.

Caixinhas com imagens de lugares.

Ainda me lembro de Vila Velha.

Quero ter um galpão em Santiago.

Colecionar caixinhas de fósforo em Tupanciretã.

•

Em Agudo, falo da Revolução Farroupilha, de 1930 e da Legalidade.

Digo que Bento Gonçalves recebeu bolsa-revolução, uma indenização do Império.

Depois da palestra, na Feira do Moranguinho, um homem me interpela:

– Então quer dizer que a bolsa-ditadura foi inspirada na bolsa-revolução do Bento Gonçalves?

•

Visitei a nova ponte em Agudo.

Aquela que caiu matando cinco pessoas, inclusive o vice-prefeito.

– Ele não sabia nadar?

– Nada muito bem.

Era o melhor nadador de todos.

•

Fiz, na sexta-feira, na minha coluna do Correio do Povo, uma crítica e um elogio à revista Veja.

A direita só viu a crítica.

A esquerda só viu o elogio.

Uns só viram meu ataque.

Outros só viram minha defesa.

Adoro isso.

Terminei assim, crítica e elogio:

"O mal costuma ser o que a Veja pensa e defende. No momento, contudo, mesmo sem ser por virtude, é o que ela revela".

Explicando a piada: corrupção é corrupção. Corrupto tem ser varrido seja de que partido for.

Orlando Silva já era.

E já vai tarde.

Mas isso não faz de Veja uma revista menos ideológica ou menos conservadora.

A complexidade é sempre chata.

Não vê o mundo em preto ou branco.