Dia do Índio
Literatura é conversa de bar.
É preciso ter a mesma paixão pela coisa, passar algumas noites acordado jogando conversa fora, delirando, sonhando, seduzindo e se distraindo. Aprende-se muito com isso. Aprende-se mais na medida em que não se tem a intenção de aprender. É como um jogo.
A gente vai jogando. E ganhando.
Ganha até quando perde.
Se for em bingo proibido, ganhar horas numa delegacia.
Literatura é papo de todo dia. Nada de formalidade.
Muda-se uma letra e tudo se transforma. Passa-se de uma letra minúscula para uma maiúscula e tudo ganha outra dimensão.
Querem ver?
Troca-se um artigo masculino por um artigo feminino e as coisas mudam de sentido, de importância e, claro, de sexo.
Ontem, por exemplo, foi dia do índio.
Pensaram nisso?
Fizeram algo pelo índio?
Falaram com o índio? Lembraram do índio? Pediram desculpas ao índio pelo que devemos a ele? Brincaram com o índio?
Ontem, foi também dia do livro. Todo dia é dia do livro., cuja data oficial de comemoração é 23 de abril.
Mas pouca gente abriu um livro para dar uma espiada.
Tem gente que acha que ler é programa de índio.
Papo furado. Ler é fazer parte de uma tribo. A tribo dos que sentem prazer vivendo grandes aventuras sem sair do lugar.
Pobre do livro. Ficou jogado de lado. Até parecia um índio. O índio acha que não vale nada nesta sociedade que desrespeita as minorias. O livro vale muito. Custa caro.
Dia do livro e do índio é um dia importante.
Mas o Índio não se deu bem.
Desde 1500 que índio se dá mal no Brasil.
Foram escravizados, exterminados e confinados em reservas.
Depois, começaram a tomar-lhes as reservas.
Índio quer apito, mas não apita nada.
Ontem, o Índio, justamente no dia do índio, foi parar no hospital.
No Hospital Cristo Redentor.
Chegou cortado. Sangrando. Ferido.
Vermelho.
Pobre do Índio.
Teve medo de morrer.
Também pudera, ele se arriscou muito, viveu uma aventura terrível, expôs-se a um perigo extraordinário.
Caiu de um pufe.
É muito perigoso ter pufe em casa.
Eu não tenho.
Também não tenho copo de vidro.
É perigoso demais cair do pufe com um copo de vidro na mão.
A gente pode se cortar.
Pode até morrer.
Faço como o cara que não tem mais sofá em casa.
Acontece que ele flagrou a mulher dele com outro no sofá.
Mandou o sofá embora e nunca mais teve esse problema.
Eu sou a favor de soluções como essa.
Na vida, é preciso ter pegada. Ter atitude.
Não admito traição. Mando o sofá embora.
O problema do índio começou com a chegada de Cabral, em 22 de abril de 1500. Depois de um tempão na seca, no meio do mar, os marinheiros portugueses saltaram para a terra firme e caíram em cima das índias com muita sede. Nem fio-dental elas usavam.
Continuam não usando, o que provoca muita cárie.
Mais recentemente, o Índio teve um problema ainda mais grave. Levou um drible do Ronaldo Gordo que lhe entortou a cintura.
Depois de Cabral e do Gordo, o Índio nunca mais foi o mesmo.
Entrou em crise. Está ameaçado de exterminação. Quer dizer, de aposentadoria. Do fim do ano, não passa.
Há muitas especulações sobre o problema do Índio.
Uns acreditam que ele se cortou em casa.
Outros, dizem que ele se cortou jogando dominó com cinco amigas.
Dominó, como todos sabem desde a época dos dinossauros, é um dos jogos mais perigosos do mundo.
Quase tão perigoso quanto jogo de botão e bocha.
Uma vez, o botão de camisa que servia de bola no jogo de botão entrou no olho de um amigo meu, que quase ficou cego.
Mas, sem dúvida, o domínó é mais perigoso.
Pode-se pisar nas pecinhas espalhadas no chão, cair do pufe em cima de um copo de vidro, rasgar uma artéria e parar no hospital. O domínio deve ser proibido para jogadores de futebol.
As más línguas dizem que Índio não estava jogando dominó, mas brincando no Dominó. Ou seria na Dominó?
Tem uma boate em Porto Alegre que se chama Dominó.
É um lugar muito perigoso. Pode-se escorregar facilmente.
Há muitos copos e pufes na Dominó. Os copos não param cheios.
Quanto mais são esvaziados, mas perigosos ficam.
E mais altos ficam os pufes.
Parece que são muitos os casos de índios que caíram de pufes na Dominó e foram parar no hospital carregados por cinco amigas.
Acho que tudo isso é literatura.
Nunca estive na Dominó.
Cair de um pufe na ou no Dominó e parar no hospital só pode ser programa de índio.
Ou coisa de livro.
Dever ser ficção. Ou conversa de bar.
Um índio velho do tamanho do Índio, acostumado a pegar atacante no braço, não ia se machucar caindo de um pufe.
Uma coisa, porém, é certa: o dia do índio não foi dia do Índio.