Juremir Machado da Silva

Diante da assombração





Estava escuro. Mas nem tanto. Dava para ver um palmo adiante do nariz no lusco-fusco da hora incerta dos tempos que correm ou voam. Era o suficiente para ver o monstro resfolegando, estrebuchando, babando, escoiceando, vomitando impropérios. Sim, o monstro falava. Não, sejamos francos, diretos, na bucha, sem meias palavras nem palavras pelo meio, o bicho discursava como se fosse uma cruza de Fidel Castro com Ana Maria Braga. Soltava fogo pelas ventas e vento pelos olhos de fogo, dois tições iluminando a cara rubra de raiva. Bota raiva nisso. Raiva de tudo, de nada. Não tinha chifres nem rabo.

Ao menos, não estavam à mostra.

O estranho era isso.

Em princípio, parecia normal, apesar do gel no cabelo e do rabinho de cavalo.

Bizarra composição.

Escarvava, fungava, escoiceava.

Fiquei assustado. Depois, mais calmo, fiquei observando. A besta falava sozinha contra tudo e todos. De três em três minutos, deixava escapar um grunhido, um gemido, um estampido, um ronco. Custei a compreender a sua linguagem, mescla de economês com juridiquês, mistura de relincho com zurro, até que, apertando o ouvido, decifrei algumas palavras, que desciam quase concretamente, como uma gosma, pelo canto da sua boca. O resto veio por analogia. O mais impressionante é que, nos piores momentos, ele roía os cadarços dos sapatos sem se abaixar. A gravata de grife italiana arrastava no chão.

O monstro furioso destilava ódio contra o estado das coisas, a crise moral, a perda de referências, o avanço do comunismo, a falta de ética, o consumismo, novamente o comunismo, a corrupção, novamente o comunismo, a corrupção, novamente o comunismo, etc. Bufava e citava a revista Veja, que brandia como uma arma ou um instrumento sagrado, pisoteando a Carta Capital, invocando Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Pondé. Ficou um tempão vociferando contra a Comissão da Verdade. Nessas alturas, tendo compreendido tudo, eu sorria e tentava gravar a cena na mente.

Era só um lacerdinha em surto na frente de um bar fashion.