Juremir Machado da Silva

Divagações sobre as cidades

Toda cidade é uma rede.

Em maior ou menos grau.

Uma cidade razoavelmente constituída é feita de rede elétrica, rede de abastecimento de água, rede de esgotos, rede escolar, rede viária, rede de telefone, rede de mercados ou supermercados, etc. Sem contar rede política, rede social, rede cultural, rede de relacionamentos, etc.

O termo cidade aparece necessariamente associado à rede e tecnologia.

O problema de boa parte das cidades da rede de países pobres ainda é a deficiência de redes, não o excesso. No Brasil, mais de 50% da população ainda não têm rede de esgotos.

As contradições, no entanto, proliferam e suscitam questionamentos. Em Alagoas, no povoado de Laje, município de Porto de Pedras, via-se recentemente mulheres tirando baldes de água do rio, onde crianças se banhavam e velhas lavavam roupas, diante de casas humildes coroadas com antenas parabólicas. A vida ali era quase um poema rústico: o rio de águas escuras faz uma curva junto à rodovia.

Moderno, pré-moderno e tradicional se juntam num mesmo quadro de pobreza, dignidade e beleza. Homens descansam ou jogam dominó sob as árvores. Jovens cuidam das unhas nas portas das casas.

Mães gritam com os filhos. Tudo se mistura, confunde e espreguiça. Logo ali, os coqueirais e o mar dão um jeito de paraíso ao que outros chamariam de rede deficiente. A cena, em certo sentido, é banal e, ao mesmo tempo, exótica. Banal para a cultura brasileira.

Exótica para o turista estrangeiro ou mesmo, sob certos aspectos, para o brasileiro de outras regiões. No Brasil, até a pobreza tem sotaque regional. Visto por outro ângulo há ali uma rede fortíssima, social, tradicional, de convivência, de parentesco, de ajuda mútua, de comunicação interpessoal e solidariedade intensa.

Haveria nisso um paradoxo, uma espécie de lei? Quanto menos rede tecnológica mais rede social? Ou essa formulação resulta de um preconceito invertido, positivo, que consistiria em ver mais solidariedade e mais “estar-junto” onde há mais deficiência de rede institucional e tecnológica e mais imobilidade?

O olhar que captou certa poesia na cena cotidiana do vilarejo à margem do rio da Laje pecaria por um etnocentrismo positivo, caso de possa falar assim? A surpresa com as antenas parabólicas viria de um choque “estético” e cultural, como se aqueles dispositivos tecnológicos estragassem o bucolismo do quadro?

Ou, noutra perspectiva, mais explicitamente negativa, a surpresa viria de um aumento do exotismo pela presença de um elemento incongruente? Por que incongruente?

Não raras vezes jornais brasileiros estamparam fotos de carretas de boi transportando antenas parabólicas como cristalização do paradoxo pós-moderno.

O que se quer discutir com a descrição dessa cena comum? Mais do que estabelecer qualquer conclusão, certamente necessária, a intenção é produzir questões: o que é a cidade? Qual o papel da comunicação na cidade? O povoado citado configura a cidade num estado embrionário ou a cidade num estado decadente?

O que define a cidade: uma determinada ocupação do espaço ou a aceleração do tempo? Não seriam as antenas do povoado uma marca da supremacia do tempo da comunicação, da rede, da tecnologia, sobre o espaço mais resistente à mudança?

Jorge Luís Borges, em “A penúltima versão da realidade”.  considera inadequada a oposição entre espaço e tempo. Numa frase dessas que caracterizam o seu estilo paradoxal e vertiginoso, ele especula sobre a possibilidade de que acumular espaço não seja o contrário de acumular tempo.

Alguém poderá objetar que Borges era um escritor autodidata e que as suas observações não podem ser tomadas como discursos de autoridade. Neste caso, bem entendido, seria necessário admitir a validade dos discursos de autoridades e, mais do que tudo, embora seja um desdobramento lógico dessa postura, desprezar o argumento em si. No mais das vezes, caso seja possível enunciar uma hipótese radical ou sem caráter científico, as citações aparecem para legitimar um argumento fraco com uma autoridade fraca e arrogante, o que imediatamente é tomado como sinal de cientificidade e de irrefutabilidade do referido argumento, pelo que a idéia de ciência é duas vezes pisoteada num mesmo procedimento de validação autoral simulado. Borges parece querer dizer simplesmente que tempo e distância são duas formas equivalentes de encurtar caminho.

Se nalgum momento foi necessário andar muito para conquistar continentes, numa etapa mecânica da temporalidade, hoje se pode conquistar muito tempo com pouca movimentação.

Citando Spencer, Borges fala da audição e do olfato como sentidos que prescindem do espaço. Esse dado faz pensar no vilarejo à beira do rio, onde sons e cheiros pareciam ter um tempo determinado ou, ao contrário, emanar de uma intemporalidade poética – outra maneira, como se pode facilmente perceber, de nomear o tempo do outro, um tempo que nos é desconhecido e que, portanto, só pode pertencer a outro espaço.

Não seria a cidade justamente um tempo da comunicação, situado num espaço fora do nosso tempo imediato, feito de cheiros e sons que nos são estranhos e que por isso mesmo nos alertam para o nosso tempo e para o nosso espaço?

Não é difícil imaginar que um espírito atento detecte contradições, imprecisões e defeitos de raciocínio em tudo aquilo que foi dito até agora, a começar pelo fato de se estar falando de cidade a partir de um povoado. Em seguida, valeria criticar a escolha da noção de rede tecnológica como metáfora de cidade aplicada a um vilarejo deficiente de certas redes, mas rico em outras.

Sob pena de valorizar em demasia um elemento aleatório, pode-se arriscar que as antenas parabólicas do povoado simbolizam uma rede de comunicação que se concretiza sem elas como valor máximo daquela comunidade. As antenas diminuem o tempo ou o espaço?

A resposta mais cômoda, e talvez correta, é: os dois. Uma resposta menos cuidadosa poderá, no entanto, ser mais prospectiva: e se as antenas diminuíssem o tempo para conversar conservar irredutível o espaço?

Borges chega a especular sobre uma humanidade hipotética que só pudesse contar com a audição e o olfato. Segundo ele, a história continuaria e a vida seria tão apaixonante e cheia de acontecimentos como a nossa. Mas essa humanidade estaria fora do espaço. Os sons e os cheiros, indica ele com seus autores preferidos, não têm esquinas.

Sem dúvida, essa humanidade teria o seu tempo, faria o seu tempo, pertenceria a uma temporalidade e comunicaria pelas suas redes tecnológicas a sua experiência fantástica.

Mas, aos poucos, caso seja possível discordar de Borges, esse tempo seria exclusivamente espaço. Uma cidade é um povoado cujo espaço resiste ao tempo e que, mesmo exposta às redes de comunicação mais imediatas, permanece fora do tempo presente como espaço possível de um tempo intemporal, ou seja, um tempo que nos precede, não necessariamente por ter vindo antes, mas por a ele termos vindo depois.

As parabólicas do povoado alagoano mexem no tempo e até no ambiente, mas não no espaço como rede imediata. Talvez, evidentemente, seja apenas uma questão de tempo.