Juremir Machado da Silva

Do espanto ao pânico

Velhas imagens

 

Há imagens que repercutem na mente como se esta, ecoando o poeta na sua solidão criativa, fosse uma catedral em ruínas ou um paraíso em chamas. E de repente, não mais que de repente, do voto fez-se o espanto e do espanto se fez a crise, o caos e a perplexidade. E de quem era a culpa? De todos. Uns pela estupidez, outros pelo egoísmo, todos pela ânsia de poder. As palavras já não significavam o que diziam e todas as promessas eram vãs como juras de marqueteiros. De repente, não mais que repente, cada voz fazia um discurso falido, cada argumento deturpava alguma verdade e quase toda notícia era falsa. Mas alguns vibravam e dizem que viria mais democracia.

Uns mentiam para atacar e outros para se defender. O novo era o velho e o velho fazia questão de não rejuvenescer. A política não reunia os homens na praça e a cidade não passava de um lugar deserto apesar da multidão desolada. Ou por causa dela. De repente, não mais do que de repente, só havia interesses e quase nenhuma solidariedade. Tudo isso, tudo mesmo, em nome da modernidade, essa quimera que exige sangue, suor e despojos e só entrega números e exclusão. Jamais se viu ideologia mais acabada na sua própria definição: corpo de teses, distorção do real e obsessão fanática por uma ideia preconcebida.

Sobre um caixote de acrílico o ideólogo moderno pregava o fim das ideologias e denunciava a ideologia dos seus inimigos jurando ser ele o único a não ter ideologia. De repente, não mais que de repente, dos discursos fez-se o silêncio e do silêncio fez-se o grito dos desesperados. Uns gritavam que se exagerava. Outros sussurravam que sempre há um tempo de votar e outro de fugir das armadilhas do populismo. Quem eram os populistas? Aqueles que gritavam contra a divisão, encolerizados contra o fanatismo, dividiam fanaticamente.

O mundo olhava para nós aturdido e estampava em manchetes de jornais o que já não sabíamos ou não podíamos exprimir. O refrão era antigo, o sentimento de espanto, renovado. Da calma fez-se a tormenta e desta se fez a inundação que cobriu os campos de ira e de descrença. A calma era falsa. As bocas jamais estiveram unidas. A história nunca fora de amor. O pressentimento era a única certeza. Avançávamos para trás. E o amigo tão próximo se fez distante, as famílias se desuniram e o futuro se transformou numa utopia mais errante do que nunca.

Da tragédia fez-se o drama e deste se fez a tragicomédia mais louca. Alguns riam por não saber ou não poder chorar, pois chorar era piegas e podia ser malvisto ou confundido com fraqueza num momento que exigia coragem e perseverança. Tudo se confundia. As vozes de cada poeta se entrelaçavam e se perdiam em murmúrios fadados ao esquecimento. Havia ânsia de conflito no ar. O ódio estava em alta. Uns pregavam unidade desde que fosse em torno das suas certezas. Outros, encurralados, soltavam os últimos bramidos antes da retirada.

Foi assim. Ainda bem que tudo isso é pura imaginação. Velhas imagens recuperadas por um programa de computador que começou a funcionar sozinho impulsionado por um vírus, o vírus da intolerância.

De repente, não mais do que de repente, dinossauros da política, que passaram a vida recontando a narrativa da resistência à ditadura, declaravam voto à extrema-direita e rendiam-se ao que diziam combater.

Então nada mais havia a salvar.

Os móveis já boiavam na correnteza.