Não tenho dúvida de que os homens eram outros quando tinham cavalos. Por que não seriam os mesmos agora que possuem carros potentes? É uma questão metafísica, se me faço entender, o que não duvido. O homem a cavalo era um animal de seis patas. Se o cavaleiro não humanizava a montaria, esta, mesmo quando maltratada, inseria-o no universo natural. Daí para a política era um salto. Não fosse a política, claro, seria a literatura. Ou a advocacia. Talvez o jornalismo. Como se sabe, tudo se interliga, o que se prova com uma visão holística da natureza. Não darei exemplos com a China para não ideologizar esta crônica neutra.
A meu ver, depois de muita pesquisa, a história divide-se em antes e depois do cavalo. Nenhuma tecnologia mudou tanto o mundo quanto o veículo a motor. Parece que a era do homem conduzindo um carro está chegando ao fim. Os veículos serão, enfim, automóveis. Poderemos, então, por esporte, retornar aos cavalos e à metafísica, necessariamente nessa ordem. Um homem a cavalo contemplava a vastidão do universo na velocidade certa. Não havia esfacelamento da percepção pela rapidez do deslocamento. A pé, não ia longe. Perdia em altivez. Era mais difícil passar a perna num homem a cavalo. E menos aceitável.
A interpretação dos fatos dependia do ponto de vista. A cavalo, era uma coisa. Hoje, migrou para o lugar de fala. Primeiro o homem foi apeado do seu cavalo. Será em breve apeado do volante do seu carro. Como será a civilização do homem a pé? Melhor, do homem sem rédeas nem direção? O homem a cavalo era cósmico. O homem motorizado, maquínico. Qual será a essência do homem de mãos livres sem perda de velocidade? Que política fará? Que jornalismo? Que direito praticará? O homem a pé nunca montou no poder. Tivemos o homem de seis membros inferiores e o homem de duas pernas e quatro rodas: da metafísica para a mecânica.
Imagino que algum leitor tome essa reflexão por um engodo. Peço paciência. Não se chega a bom porto sem vento favorável. Há muitas formas de alcançar o conhecimento. Uma delas pode ser esta. O cavalo estabelecia com o homem estreita colaboração. Eram duas cabeças pensando juntas. Nem sempre a humana era a mais racional. O cavalo, porém, nunca se gabava de entrar com a parte intelectual da sintonia. O homem sobreviveu à separação com o cavalo? Sobreviverá ao volante?
O cavalo e o carro conduzido ficarão para trás. E o racismo, o machismo e a homofobia? O caso da influenciadora Mariana Ferrer, estuprada em Florianópolis, e humilhada em audiência judicial pelo advogado do agressor, com o beneplácito do juiz, e a suposta criação, negada pelo Ministério Público negue, da categoria “estupro culposo”, indica que o preconceito é mais forte. Homens acusando ou julgando mulheres em crimes sexuais ainda podem agir como machos ferozes e não como técnicos. Estupro sem a intenção de estuprar é simplesmente a vontade do macho de absolver o culpado e culpar a vítima. A expressão estupro culposo nunca teria sido usada nem consta nos autos. O sentido já é outra história. O agressor não teria tido a intenção de estuprar por não ter percebido que a mulher não estava em condições de consentir ou não. A vítima vira suspeita de mentir. Ela foi desqualificada por ter comportamente "decente" e aparecer em fotos "ginecológicas".
Faltariam provas de que houve estupro. A defesa de Mariana diz que as provas são fartas. O enredo mostra uma história que já se viu muitas vezes e nunca terminou bem. No final, tudo se inverte e a mulher paga por ter "provocado" com suas "roupas curtas". Por que denunciaria? Por dinheiro? Crime perfeito. Ainda mais que o acusado é da turma dos camarotes. Um vexame tão grande quanto o de Donald Trump tentando melar a contagem dos votos da eleição presidencial da maior democracia. O cavalo era um gentleman. Enquanto trotava, pensava em metafísica...