Juremir Machado da Silva

Do samba ao funk

Do samba ao funk

Estou cada vez mais barroco. Misturo tudo. Saturação de imagens. É a vida no espetáculo da sociedade.
Aqui vão as últimas.
Pensei em comprar um apartamento em Ipanema ou no Leblon, de frente para o mar. Desisti. Não vai dar mesmo.
O condomínio é muito alto: R$ 10 mil.
Ah, se não fosse por esse detalhe!
Fomos do samba ao funk sem sair da Vieira Souto.
Na tarde anterior, fui visitar meu amigo Diogo Mainardi. Tomamos uma cerveja e falamos da vida.
Conversa vai, falamos do Ronaldinho Gaúcho.
Diogo é fã do futebol do dentuço.
Eu também. Contei, mais uma vez, que conheci Ronaldinho quando ele era criança. Assis já dizia que o irmão seria o craque da família. Repeti muitas vezes isso para os meus amigos franceses, em Paris. Anos depois, Ronaldinho estourou no PSG. Ganhei fama de vidente.
Diogo Mainardi acha que é hora de se escrever uma biografia de Ronaldinho. Pensei no assunto. Dona Miguelina, mãe do craque, foi auxiliar de cozinha na escola onde Cláudia, minha mulher, trabalha. Acompanhei o surgimento do Assis, que é um cara muito legal. Jogava muito e soube ajudar a família. Tem malandragem.
Dormi biógrafo. Acordei desinteressado. Estou com muita preguiça. Vou deixar essa tarefa para o Diogo.
Fui terminar de ler Luis Buñuel na praia.
Buñuel garantia que, se fossem paraguaios, Dos Passos e Hemingway não seriam lidos por ninguém.
Adoro essa liberdade de posicionamento.
Os fãs especialistas odeiam a liberdade dos leitores. Só aturam bolas nas costas de credenciados.
– Ah, Buñuel é Buñuel. Ele pode.
Eu também. Pois:
– Juremir é Juremir.
Ninguém mais suporta Camões, Dante e outros grandes do passado. Salvo alguns gigolôs que vivem de conhecer o que não interessa a ninguém. É um capital sagrado. Buñuel leu Sade e descobriu que tinha sido inútil ler Camões, Dante e Tasso. Fecho com Buñuel. Afinal, como se diz:
– Buñuel é Buñuel.
Ele não gostava de Borges. Achava o argentino pedante, sempre dando lições e obcecado pelo Nobel. Reconhecia em Borges um “bom escritor”. Mas não respeitava ninguém somente por ser um “bom escritor”. Matou a pau. Eu gosto de Borges. Mas detesto os admiradores de Borges. Pior são os admiradores de Machado de Assis. Pior ainda são os imitadores de ambos.
Na praia, aprendi algumas coisas: o que dizer para a sua mulher se ela o flagrar olhando uma bunda monumental em evolução a caminho do mar numa progressão deliciosa.
– Nossa, tão jovem e já com celulite.
Foi isso que um carioca ensinou para um catarinense com ar de bom aluno. Parece que funciona. Salvo se o namorado da dona da bunda estiver passando na hora desse veredicto. Assistimos ao show da Joyce na areia. Estou misturando os dias. Só me lembro do funk no meio da Vieira Souto. Diogo, se bem me lembro, ficou na janela. Nós, como era caminho do hotel, ficamos atoladinhos.
Salvo se já perdi a noção das horas e dos dias.
O que eu gosto no funk é aquela elegância discreta no movimento dos quadris. Parece o Lago dos Cisnes sem o lago nem os cisnes. Sem contar a polissemia (isso mesmo e não é palavrão) das letras. É poesia pura. De fazer corar a ABL. Um rápido exemplo de uma letra que eu desconhecia:
– Vou botar na sua garagem/Só de sacanagem...
É condoreiro. Baudelaire não faria melhor.
Olavo Bilac, muito menos.
Nem sequer Quintana.
O mundinho cultural brasileiro mora em Ipanema e no Leblon. Salvo dois ou três que vivem em São Paulo. Na Barra da Tijuca moram bregas como jogadores de futebol, novos ricos e apresentadores de televisão. No circuito Ipanema – Lelbon, quando passa um bloco, feito o do Preta Gil, com seu trio elétrico para carioca, fica todo no mundo na janela para ver e ser visto. Pretinha gritava:
– Olha a Sandrinha da novela lá em cima, gente.
E mais:
– Olha a Carolina Dieckmann na janela, gente.
Como é bom viver na província.