Juremir Machado da Silva

Dois textos sobre educação

Aluno vai escolher?

 

      A minha ingenuidade é maior do que Palomas. Não é pouca coisa. Eu achava que para fazer reformas radicais era preciso ter muita legitimidade obtida nas urnas. Não falo apenas de ser eleito, mas de ter submetido um projeto para, pelo voto, estabelecer um pacto social. Michel Temer não teve esse momento fundador com a nação. Seria conveniente que conduzisse seu período com discrição. Ele não acredita nisso. As suas reformas são as mais extremas de que já ouvi falar em minha já meio longa vida de observador social. Li, por exemplo, que ele ainda não decidiu sobre o tempo de contribuição para que a pessoa possa receber aposentadoria integral: 45 ou 50 anos?

A reforma do ensino médio caiu como um guilhotina. Em lugar de muito debate, uma medida provisória. Primeiro impõe, depois discute. Todo mundo sabe que algo precisa mudar para melhorar. O texto publicado indica que vai piorar. São muitas as questões filosóficas envolvidas. Deve prevalecer a lógica da demanda (lógica do cliente que escolhe) ou da oferta (lógica da sociedade que decide o fundamental para seus filhos em formação)? Por que só matemática, português e inglês devem ser disciplinas obrigatórias nos três anos? Há muita crítica em relação ao descaso com educação física e artes e quase nada quanto à filosofia, sociologia, história e geografia. São dispensáveis? A tendência é que a carga horária dessas matérias diminua em dois terços. O aluno vai mesmo escolher o que estudará?

E se não houver oferta? As escolas poderão escolher entre os cinco eixos possíveis. Não serão obrigadas a oferecer todos. Sejamos diretos: é um retorno a algo semelhante aos tempos do ensino profissionalizante da época do regime militar. A tendência é que nas escolas públicas predominem as matérias obrigatórias e técnicas. Já as escolas de elite disponibilizarão para quem puder pagar as cerejas do bolo, as humanidades. Uma escola forma os dirigidos. A outra prepara os dirigentes. O pessoal do tal escola sem partido deve estar comemorando. Vai ter menos desconstrução e crítica nas salas de aula. Em Palomas, o doutor, rei da secura, dizia: “Filho de pobre precisa de matemática e português para trabalhar atrás do balcão. Filho de rico é que pode se dar o luxo das filosofias e outras literaturas”.

Toda vez que a palavra flexibilização é citada por governos, o que ocorre cada vez mais, é certo que algo vai endurecer. O bode está na sala. A educação física está sendo usada para desviar a atenção. Que desafio enfrentará o adolescente se ele não tiver de provar o que desconhece? Como acomodar o conteúdo de história apenas no primeiro ano para que todos aprendam o mínimo do mínimo? Quanto meninos e meninas vão escolher disciplinas “chatas” de ciências humanas? Como sugeria o filósofo Alain Finkielkraut, na época do cliente-rei e do culto à juventude, o currículo deve ser feito à la carte. Encontrei uma senhora, Dona Marli, que se mostrou entusiasmada com a reforma:

– Vão tirar o comunismo das salas de aula – garantiu.

Fiquei perplexo. Não soube responder. Nunca sei o que dizer.

 

No Paula Soares

 

Não sei se não vou atrapalhar a vida de quem me tratou tão bem. No último sábado, fui palestrante numa atividade de professores na escola estadual Paula Soares. É o lindo colégio colado ao Palácio Piratini, em Porto Alegre. Parece um anexo do prédio do governo. Quando o governador sai ao jardim para respirar, avista o Paula Soares. Se eu trabalhasse ali, acho que não resistiria à tentação de acenar para nossos governantes. Há uns 30 anos, jovem repórter, fui ao Paula Soares cobrir um seminário sobre a morte. Guardei uma boa lembrança da imponência do imóvel. Desta vez, falando de vida, passei uma manhã deliciosa com meus colegas de magistério. Falamos bastante da medida provisória da reforma do ensino médio. Admirei o pessoal.

Sinto até constrangimento em cometer esta inconfidência. Fiquei chocado com o estado do prédio. Todo um andar está interditado. Vale lembrar que o Paula Soares é um dos colégios ocupados pela gurizada neste ano. A reforma, segundo todos me informaram, inclusive a diretora, deve começar em seguida. Haverá uma visita ao secretário estadual da educação para que não haja adiamento. Acho que sou meio medroso. Fiquei pensando: se não tomarem providências urgentes, vai cair na cabeça das pessoas. Vou direto ao ponto: como pode uma escola que vive sob os olhos dos governadores ter chegado a tal descalabro?

Não resisto ao comentário rasteiro: o Brasil fazendo megaeventos bilionários e uma escola nas barbas dos governadores caindo aos pedaços. Como não estarão as que ficam em lugares que ninguém vê? Como podem os governadores falarem em educação à sombra melancólica do arquitetonicamente majestoso Paula Soares surrado pelo tempo, pela falta de investimento e de manutenção? Toda a comunidade do Paula Soares quer a reforma. Mais, quer o salvação do prédio. Por que tanta demora? Por que faltam recursos tão essenciais? Se eu fosse um desses empresários ricos, passava hoje mesmo na frente do Paula Soares, assinava um cheque (sou desse tempo) e doava para reformar na hora. Estou delirando: esse pessoal quer mais é sonegar impostos.

Ninguém me pediu para escrever isto. Talvez até venham a me considerar um visitante inconveniente, um abelhudo, uma mala. O sujeito é convidado, recebido, bem tratado, aplaudido e sai falando mal. Pode ser que alguém me corrija. Pode ser que alguém me esclareça: estava tudo bem não faz muito, mas, de repente, por essas coisas da vida, o prédio se estragou um pouco e passou a exigir reformas. Pode ser que tenha sido culpa de algum temporal. Não sei.

Vou tentar explicar, Não sei se consigo: o que me espanta é a lentidão oficial. Aquele prédio é, como se diz, uma joia da coroa. Mas, acima de tudo, é uma escola. Todas as escolas são joias da coroa. Nenhuma escola no meu reino encantado ficaria mais de uma semana sem receber todos os cuidados possíveis. É por isso que não tenho reino. A imagem dos guerreiros professores, no prédio reduzido pelos males que o corroem, me comoveu silenciosamente. Peço desculpas por não guardar o meu espanto. Força, Paula Soares. Vai melhorar.