Na dúvida, diz a orientação de trânsito, não ultrapasse. Não se deveria aplicar a mesma ponderação a certas políticas públicas? Um decreto presidencial “incentiva salas e escolas especiais para crianças com deficiências, transtornos globais do desenvolvimento, como o autismo, e superdotação”. O que se ganha com essa separação? Quem ganha? Milton Ribeiro, ministro da Educação, alega que "muitos estudantes não estão sendo beneficiados em classes comuns". Especialistas pensam o contrário: haverá exclusão e “guetização”. Uma das perdas será a do aprendizado da convivência com a diferença.
Antônio Carlos Sestaro, presidente da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, disse ao jornal O Estado de São Paulo que se trata de um retorno à exclusão. Eu já tive alunos autistas com ótimo rendimento e inserção em sala de aula. Sou casado com uma professora que trabalhou trinta anos com pessoas com síndrome de Down em escolas especiais. As políticas de inclusão foram vistas como importantes progressos de integração. Por que, em lugar de retomar a política de segregação, não preparar melhor o pessoal para trabalhar com deficiências? Por que não criar melhores condições de inclusão?
Outra política duvidosa é a que flexibilizou a proteção a restingas e manguezais. O Conama, órgão presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, revogou resoluções altamente protetivas a esses ambientes ameaçados. Quem ganha com isso? Salles é aquele mesmo que na famosa reunião dos ministros com o presidente da República, em 22 de abril deste ano, defendeu que se devia “passar a boiada”, derrubando normas de proteção ambiental, enquanto a mídia estivesse ocupada com a pandemia do coronavírus. O humor popular chama Salles de ministro do “Fim do Ambiente”. Ele parece inabalável.
Para Salles o atual Código Florestal garantirá proteção a restingas e manguezais sem a necessidades de normais inferiores. Especialistas não concordam. Ao jornal O Globo, Carlos Bocuhy, presidente do Proa, Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, observou: “O único instrumento jurídico efetivo utilizado pelo MP-SP para proteção das restingas é a resolução 303/2002. Uma vez revogada essa resolução, nós perdemos a proteção da faixa dos 300 metros a partir da praia-mar, e isso significa um grande boom imobiliário de resorts, de empreendimentos em todo o Brasil que seriam beneficiados com esse desguarnecimento de um compartimento ambiental importantíssimo". A medida atenderia a mero interesse econômico.
Interesse econômico não é algo ruim. O problema é o “mero”. Ganhar dinheiro não é feio. Nem toda forma de ganhar dinheiro, porém, é legal, bonita ou constitucional. Muitas vezes o ganho imediato ocasiona enormes e irreparáveis perdas de médio e longo prazos. A moderna economia defende lucrar com ética, proteção à natureza e respeito à dignidade humana. Todo mundo certamente lembra do puxão de orelha dado pelo rei Juan Carlos, da Espanha, que de santo nada tinha, em Hugo Chávez, o famoso “por que no te callas?” Um trocadilho infame, como todo bom trocadilho, pergunta: “Por que no Salles, Ricardo?”