Tempo e linguagem
Quer saber a idade uma pessoa? É bastante fácil. Basta perguntar para ela. Dã! Digamos, porém, que a pessoa não queira responder. Aí basta observar o que ela diz, faz ou escreve. Um homem que fala assim de uma gata:
– Que pequena maravilhosa!
Teve 20 anos de idade lá por 1970.
Outra marca, escrita, de velhice, é o uso de ponto-e-vírgula. Só o utiliza, fora de enumerações (saber o que é isso já revela a idade do brother), quem está na área há mais tempo que o persistente e genial Oscar Niemayer.
Uma pessoa que pede gentilmente ao seu interlocutor:
– Por favor, me manda um fax.
É alguém que envelheceu precocemente ou não conseguiu acompanhar o vertiginoso avanço da tecnologia. Terá idade ainda mais avançada se, tendo recebido um arquivo eletrônico, agradecer (agradecer é coisa de velho) e pedir encarecidamente um complemento bizarro:
– Me manda, por favor, uma cópia em papel pelo correio.
Há palavras que entregam a idade de cara. Por exemplo, falar “juventude”. Só fala jovem quem é velho. A juventude fala “galera” ou outras palavras que velhos como eu desconhecem. Tem muito velho se achando jovem por conseguir usar uma expressão que parece muito jovem:
– Vai rolar uma festa lá em casa.
Rolar é jovem. Acontecer é pré-histórico. O problema é que a decrepitude chega rápido. Outro dia, um cara de uns 40 anos, numa mesa de bar, pagou um baita mico:
– Me manda um e-mail ainda hoje – disse com neutralidade.
A galera começou a rir baixinho. A zombaria foi crescendo. Ele saiu sem entender. Atrevi-me a perguntar:
– Que foi que rolou?
– E-mail é coisa de velho.
Bah! Fiquei pasmo. Passados alguns minutos, tentei abafar antes de bater em retirada sentindo-me um ancião.
– Falamos pelo twitter – eu disse para a gurizada.
Risinhos abafados me fuzilaram prontamente. Não me dei por achado. Recorri à palavra que vale como senha:
– Que foi que rolou desta vez, galera? (pode se dizer também sem passar vexame “que que tá pegando?”)
– Twitter já era. É coisa de velho.
– Coisa de velho?
– Muito lero, muito conteúdo, pouco imagem.
Achei que o guri ia me chamar de tio, mas soube que tio é coisa de adolescente para velho. Galera que já saiu da adolescência e largou o twitter não fala mais tio.
– Qual é a parada agora (parada pega bem)?
– É o face, cara.
Fiquei feliz. Estou no facebook. Se duvidar, digo até: “Estamos na mesma vibe, velho”. Aí o Luís Gomes ligou para mim e, conversa vai, conversa vem, garantiu que o facebook já era. A tendência agora nos Estados Unidos é o rap genius, uma nova rede social bacana. Se continuar assim, vou passar a usar ponto-e-vírgula. Não dá mais para esconder a idade. Sou do tempo do twitter.