Juremir Machado da Silva

E o Mercado Público escapou... Por enquanto

TCE decidiu que concessão precisa passar pela Câmara de Vereadores

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      Desde março não vou ao centro de Porto Alegre. Creio que nunca fiquei tanto tempo sem pisar nesse chão por onde meus passos ressoam há 40 anos, desde que, adolescente de cabelos longos, me fascinei com a beleza, sempre meio maltratada, do centro histórico. Na época, a Rua da Praia, ao menos, brilhava como o piso irretocável de um salão de baile. Eu ficava embasbacado com aquele luxo todo. Como tenho tendência à pieguice, vejo poesia nesses ecos de sapatos nas calçadas. Ando com saudade até de ver aquele edifício inacabado que chamam de esqueleto. Todo dia passava por ali. Era meu percurso e alegria.

Não vejo, portanto, há meses o Mercado Público com sua silhueta imponente definindo a paisagem histórica da capital tendo ao fundo o Guaíba. É um cenário que adoro e nunca me cansei de admirar. Gosto de atravessar o prédio amarelo, das paradas de ônibus até a prefeitura ou ao contrário, sem pressa. Não sei bem a razão, mas acho mais bonito fazer isso em dias de chuva, não só pela proteção que dá a quem saiu sem guarda-chuva. Tenho lido e ouvido que o Mercado Público será objeto de nova concessão. Nunca se sabe exatamente o que isso significa. Para o proponente, a autoridade municipal, modernização e qualificação. Para os críticos, privatização e estrago na memória.

      Confesso que não consigo imaginar o Mercado Público “gourmetizado”, um shopping center no coração da metrópole, um pavilhão gélido e triste na pulsação urbana com suas gritarias, correrias e vertigens de fim de tarde. Preciso ser franco: tenho horror a shopping center, esses ambientes, para lembrar a expressão do antropólogo Marc Augé, sem identidade própria, um “não-lugar”. Admito que o Mercado Público de Porto Alegre pode e deve receber melhorias. Para mim, o Mercado Público encarna um imaginário falante, espírito de época, com sua rusticidade, seu ar de passado enraizado no presente, vestígio de que sempre seremos se assim os donos do poder quiserem.

      Mercado Público não pode ser elitizado. Eis a minha tese nada original. Tem de ser popular, de abraços abertos para todos, entre tradição e modernidade, aromas e figuras folclóricas, cores vivas e algumas bizarrices, espaço de cruzamentos, mesclas, gente de todas as classes sociais e efusões. Isso não implica falta de banheiros limpos e acessíveis. Mas o Mercado Público não pode virar uma espécie de arena esportiva, teatro onde antes tudo era simples e informal. Tem também a situação dos atuais permissionários. Terão de sair? Conseguirão se encaixar numa nova concessão? Merecem sair? Não conquistaram, por bons serviços, direito de ficar como parte do lugar?

      Entendo que espaço público deve passar por revisões de concessões. Pode ficar melhor com outros exploradores? Qual o projeto? Melhorar mantendo a essência ou transformar inteiramente o interior guardando apenas as paredes externas? Alterar ou preservar o estilo mercado popular? Conceder para quem? Pequenos comerciantes ou uma grande empresa? Busco informações. Ainda assim, continuo em dúvida.