Como quase todo jovem estudante de História e Jornalismo, li “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano. Fiquei atônito. Admirei mais o conteúdo do que o estilo. Depois, li outros livros do escritor uruguaio. Nunca me apaixonei. Achava piegas ou panfletário. Agora, com um pé atrás, li “Fechado por motivo de futebol” (L&PM), no qual Galeano extravasa a sua paixão pelo ludopédio. Coletânea de textos dispersos, tem repetições.
Mas não deixa de ser comovente.
O título vem supostamente de uma frase colada pelo autor na porta de sua casa a cada Copa do Mundo. Galeano destaca a sua devoção ao futebol arte, ao drible, à travessura, à ousadia e ao jogo como puro jogo. Critica a mercantilização do esporte, as negociatas, as cartolagens e a transformação dos jogadores sul-americanos ou africanos em commodities apropriadas pelos ricos europeus com patrocínios de marcas multinacionais que ditam até escalações. Contando pequenas histórias, distrai e emociona. Um golaço de placa.
Uma das suas sacadas: “Os moribundos atrasaram suas mortes e os bebês apressaram seus nascimentos. Rio de Janeiro, 16 de julho de 1950, estádio do Maracanã. Na noite anterior, ninguém conseguia dormir. Na manhã seguinte, ninguém queria despertar”. Flauta? Respeitosamente. A admiração do escritor pelo futebol brasileiro é patente. Enorme é o seu encantamento com Maradona: “Nenhum jogador tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e mais popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não famosos nem populares”. O mais famoso e popular de todos os tempos não é Pelé?
O brasileiro jogou mais. O argentino comprometeu-se mais. Pelé, feito um Machado de Assis do futebol, jamais abraçou suficientemente as causas dos negros brasileiros. Maradona, com todos os seus tropeços, revelou-se mais solidário com os homens esquecidos pela sorte. Galeano poetiza: “Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas, ou ao menos masculinas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável”. Mas não só. Maradona sempre teve a língua afiada.
Um ponto muito explorado no livro é a relação dos intelectuais com o futebol. É um tema datado. Quem ainda se interessa pela resistência dos intelectuais ao que chamaram de “ópio do povo”? Os intelectuais passam. O futebol continua. Utopia: o dia em que os jogadores não precisarão mais ir embora para enriquecer o futebol europeu. O dia em que permanecer no Brasil ou no Uruguai será uma glória. O dia em que nossos clubes brilharão no imaginário de todos.
Eduardo Galeano conta duas vezes uma anedota envolvendo o primeiro-ministro britânico Winston Churchill, um Pelé das frases. Perguntado sobre o seu segredo para a longevidade, Churchill disse:
– É o esporte. Nunca o pratiquei.
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Ou o Grêmio faz o favor e derruba Odair ou Odair derruba o Inter?