Juremir Machado da Silva

EDUCAÇÃO SUPERIOR EM LULA vs FHC: A PROVA DOS NÚMEROS

EDUCAÇÃO SUPERIOR EM LULA vs FHC: A PROVA DOS NÚMEROS

EDUCAÇÃO SUPERIOR EM LULA vs FHC: A PROVA DOS NÚMEROS
Naomar de Almeida Filho

Um jornalista escreveu em seu blog, auto-apresentado como um dos mais
acessados do Brasil: “Provei com números que o que ele [o Governo
Lula fez mesmo foi aumentar o cabide de empregos nas universidades
federais, aumentar a evasão e o número de vagas ociosas.”
Fiquei muito interessado no tema, por dois motivos: Primeiro, porque
fui Reitor de uma universidade federal durante quatro meses no governo
FHC e quase todo o tempo do Governo Lula, o que me permite a rara
situação de, na condição de gestor público, poder comparar os
distintos cenários de política de educação superior. Segundo, porque
minha área de pesquisa é a Epidemiologia. Nessa condição, trabalho com
modelagem numérica e técnicas quantitativas de análise, num campo onde
exercitamos uma quase obsessiva busca de rigor, validade e
credibilidade. Isto porque uma eventual contrafação ou fraude
estatística pode custar vidas, produzir riscos ou aumentar
sofrimentos.
Assim, procurei, no blog do jornalista, a prova dos números.
Encontrei, numa postagem de 24/08/2010 – arrogantemente intitulada “A
fabulosa farsa de ‘Lula, o maior criador de universidades do mundo’.
Ou: desmonto com números essa mentira” – três blocos de questões:
aumento de vagas e matrículas; evasão na educação superior;
empreguismo na rede federal de ensino. Analisarei cada uma delas,
demonstrando que essas “provas de números” são refutadas em qualquer
exame sério de validade técnica ou metodológica.
No primeiro bloco, referente a aumento de vagas e matrículas, achei as
seguintes afirmações: “A taxa média de crescimento de matrículas nas
universidades federais entre 1995 e 2002 (governo FHC) foi de 6% ao
ano, contra 3,2% entre 2003 e 2008 - seis anos de mandato de Lula.
[... Só no segundo mandato de FHC, entre 1998 e 2003, houve 158.461
novas matrículas nas universidades federais, contra 76.000 em seis
anos de governo Lula (2003 a 2008).”
Aqui o jornalista comete erros primários (ou de má-fé) de análise de
dados. Qualquer iniciante em análise estatística, demográfica ou
educacional sabe que não faz sentido comparar um período de oito anos
com outro de seis anos, ou este com outro de quatro anos; mais ainda
se usarmos médias aritméticas ou números brutos; e pior ainda se
considerarmos (como ele bem sabe) que o principal programa de expansão
das universidades federais, o REUNI, começa a receber alunos
justamente depois de 2008.
Além disso, usa dados errados. Eis os dados corretos de matrículas nas IFES:
2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
502.960 531.634 567.850 574.584 579.587 589.821 653.022 720.317 917.242
1.010.491
(fonte: INEP e ANDIFES)
Não precisamos questionar os indicadores do governo FHC; consideremos
a credibilidade destes como de responsabilidade do jornalista. Mas,
com os dados da pequena tabela acima, podemos demonstrar que,
considerando todo o período do governo Lula, o volume total de
matrículas nas federais aumentou 90,1%. Portanto, a taxa média de
crescimento de matrículas nas universidades federais, entre 2003 e
2010, não foi de 3,2% e sim de 11% ao ano.
Também, no que concerne à segunda afirmação, em seis anos de governo
Lula (2003 a 2008), de fato ocorreram 188.683 novas matrículas nas
universidades federais, e não, como afirma o jornalista, apenas 76.000
(aliás, números redondos são em geral suspeitos: sugerem ausência de
fonte). Uma comparação tecnicamente mais correta será entre os dois
segundos mandatos: entre 1998 e 2003, segundo mandato FHC, houve
158.461 novas matrículas; entre 2007 e 2010, segundo mandato Lula,
foram exatas 478.857 novas matrículas registradas nas universidades
federais. Ou seja, contrastando períodos equivalentes, o operário Lula
abriu 200% mais vagas novas em universidades federais que o
intelectual FHC.
No segundo bloco de questões levantadas pelo jornalista, o assunto era
evasão na educação superior. Ele escreveu: “O que aumentou brutalmente
no governo Lula foi a evasão: as vagas ociosas passaram de 0,73% em
2003 para 4,35% em 2008. As matrículas trancadas, desligamentos e
afastamentos saltaram de 44.023 em 2003 para 57.802 em 2008. [... A
Universidade Federal do ABC perdeu 42% dos alunos entre 2006 e 2009.”
O jornalista confunde evasão com ociosidade. Aliás, não sei de onde
ele tirou os dados que indicariam um aumento “brutal” de evasão nas
universidades federais no governo Lula. Não tenho conhecimento de
nenhuma base de dados que recolhe e computa informação sobre “vagas
ociosas” que, a propósito, tem definições variadas e divergentes
dentro da autonomia das diferentes instituições. Sobre trancamentos,
desligamentos e afastamentos, novamente o jornalista comete erros
primários (ou de má-fé) na análise de dados. Qualquer iniciante em
análise estatística, demográfica ou educacional sabe que um aumento
bruto de 44.023 para 57.802 afastamentos nada significa sem comparação
das proporções relativas. Ocorreram mais afastamentos simplesmente
porque o sistema recebeu mais matrículas, de 567 mil para 720 mil no
período considerado. Usemos os percentuais respectivos: entre 2003 e
2008, a taxa de afastamentos passa de 7,7% para 8,0%, uma variação
insignificante. Onde está o “salto”?
O estudo mais abrangente sobre o tema evasão na educação superior no
Brasil foi realizado pelo Instituto Lobo para o Desenvolvimento da
Educação, da Ciência e da Tecnologia. De acordo com essa pesquisa
(Silva Filho et al 2007), a evasão anual média do Brasil, entre 2000 e
2005, foi de 22%. Essa taxa foi mais de duas vezes menor nas
instituições públicas, em torno dos 12%, que nas instituições
privadas, quase 26%. No que se refere às áreas, a maior evasão média
anual ocorreu na formação em Serviços, com 29%; seguida por Ciências
Naturais, Matemática e Computação, 28%, e Ciências Sociais, Negócios e
Direito, 25%. A menor evasão foi em Ciências da Vida, com 17%. Os
cursos com maiores taxas anuais de evasão foram: Matemática, 44%,
Marketing e Publicidade, 36%, Educação Física, 34%. Os cursos com
menores taxas foram Medicina, com 5% e Odontologia, 9%. Notem que
essas são taxas médias anuais.
Outra coisa são as estimativas de evasão no tempo do curso, ou seja,
complemento matemático da taxa de sucesso. Estudo da USP (2004)
avaliou que apenas 32% de seus alunos concluíram o curso no tempo
previsto. Os restantes retardaram, mudaram ou desistiram do curso,
nesse caso configurando uma taxa bruta de evasão que, no Brasil, entre
2000 e 2006, situou-se em 49%. Esse indicador é mais difícil de
calcular e comparar, dada a diversidade na duração mínima dos cursos
(no Brasil, de dois a seis anos), e na própria arquitetura curricular,
muito distinta entre os diferentes modelos de universidade. Não
obstante, para efeito limitado de comparação internacional, alguns
dados da Unesco, no período de 2002 a 2006, mostram o Brasil numa
situação intermediária: Coréia do Sul 22%, Cuba 25%, Alemanha 30%,
México 31%, EUA 34%, França 41%, Brasil 49%, Colômbia 51%, Suécia 52%,
Venezuela 52%, Itália 58%.