Juremir Machado da Silva

Em busca de algo esquecido em Paris

O que venho buscar em Paris? Nada de glamour ou de extravagâncias. Estou numa fase totalmente abstêmia. Nem os vinhos franceses eu experimento. Contento-me com um "confit de canard" (uma coxa de pato), uma água mineral Perrier, um croissant no café da manhã e com muitas caminhadas.

Venho buscar velhos amigos, eternos sentimentos, algo construído em anos de muita esperança e incerteza e jamais atingido por qualquer tremor.

Falamos de livros, de autores, de ideias, de política.

Reduzimos tudo, alegremente, a um jogo.

O que conta mais no jogo? O prazer de jogar ou o resultado? Lamentamos que, cada vez mais, só o resultado interesse e que tudo seja competição.

Um velho amigo, que se retirou da luta, sentecia:

– Quando se está num jogo em que só o resultado interessa e que não se pode ganhar, com lisura e prazer, é preciso ter a sabedoria de sair do jogo.

De que falamos?

Do jogo político? Do jogo intelectual?

Do jogo das disputas mesquinhas dos quais ninguém escapa.

Por que falamos disso?

Não sabemos. De repente, estávamos falando disso. Essas conversas que surgem do nada, tomam algum tempo, arrancam alguns suspiros, exigem algum silêncio e, finalmente, perdem-se na solidão dos pensamentos.

Paris é uma cidade como qualquer outra: pode-se gastar muito ou pouco. Na imaginação de alguns, estar em Paris é um acontecimento. Na prática, para quem nela viveu um bom tempo, é um lugar que se visita pelo que nela se deixou, pelo que dela se levou, pelo que se pode recuperar.

Longos passeios ajuda a brincar de Baudelaire: flâneur, passantes, poesia, galerias, modernidade transformada em tradição, perfumes voláteis.

Uma feira de Natal na Place de La Concorde e a avenida mais charmosa do mundo. O Brasil, claro, sempre está por perto. Eis a prova.



 

 

E os preços?



De resto, essa vontade de agarrar o tempo e amarrá-lo pela coleira.