Juremir Machado da Silva

Em defesa do bairrisimo sério

Já fui contra o bairrismo. Mudei de ideia.

Pensei melhor no que eu mesmo já escrevi. O bairrismo gaúcho é localista. Exprime o orgulho da especificidade regional. O bairrismo paulista é universalista. Expressa-se pela crença de que São Paulo é cosmopolita. O bairrismo carioca é metafísico. Vigora na certeza de que no Rio de Janeiro não há bairrismo. No Rio Grande do Sul é comum ouvir-se: “Nós, os gaúchos...” Em São Paulo: “Nós, brasileiros...” No Rio, a coisa parece modesta: “Nós, seres humanos...”

Diante da observação de que há bairrismo em todos os lugares, um paulistano objeta: “São Paulo é grande demais para ter bairrismo. Um bairro de São Paulo é maior do que muita cidade. Tudo acontece aqui, não se exclui nada. É um mundo”. O gaúcho reclama: “Apenas nos defendemos do eixo Rio-São Paulo. O carioca desconversa: “Somos um cadinho de culturas, não temos culpa de sintetizar a nação”. O paulistano resvala para o conceitual: "Que negócio é esse de eixo!"

O paulistano fala por “imperativos categóricos”. É o homem do “deve ser” assim e assado. O gaúcho prefere os imperativos impulsivos, ou rompantes: “Vamos acabar com isso na garra ou na marra”. O carioca vive à sombra dos “imperativos atmosféricos”. Tudo é questão de pintar um clima ou de esperar o tempo melhorar. Todos detestam os respectivos estereótipos. Mas quando se trata de definir o outro, o gaúcho diz do carioca: “É o malandro”. E do paulista que virou paulistano: É o caipira com mania de grandeza que fala “ô, loco”. O gaúcho é visto como o comedor carne e tomador chimarrão que só abre a boca para dizer “bá” e “tchê”. Sem clichês, claro.

Cheguei a uma conclusão tardia: só o bairrismo é universal.

Tolstoi andou dizendo coisa semelhante, mas não conta.

Os russos sempre foram muito bairristas.

O bairrismo paulistano gosta de hiperdimensionar seus sofrimentos.

Um dos corinthianos libertadores na Bolívia e recebido como herói no Brasil, depois de passar uma temporada em cana suspeito de participado da derrapagem que matou um menino, teve  dificuldades para chegar até o avião. Não teve dúvidas na síntese: "Para corinthiano tudo é difícil".

Depois disso, fiquei a favor do bairrismo e do clubismo.

Aguça o discernimento.