Juremir Machado da Silva

Em defesa do direito ao ego

Volto e meia, escrevo “eu”.

Digo eu fiz isto ou eu quis aquilo. Recebo críticas. Há quem pense que só os talentosos têm direito ao “eu”. Os medíocres, como eu, deveriam se restringir à terceira pessoa do singular. Em lugar de “eu não levo fé nesse governo” um “não se leva fé nesse pessoal”. Alguns disfarçam o egocentrismo dominante com um “nós” elegante e dissimulado. Não posso. Nem tento. Ouço meu primeiro editor em jornal. Era um sujeito inteligente e objetivo:

– Nós quem, cara pálida?

Não sou medíocre. Sou pior: “midiocre”. Postei isso, há anos, no twitter, que já é coisa de velho.

Uma menina me corrigiu na hora.

– Não é midiocre, seu burro. É medíocre.

– É um trocadilho: mídia com mediocridade – expliquei.

– Me engana que eu gosto – ela replicou.

Assim naufragou um dos meus melhores conceitos, a minha grande contribuição à sociologia do espetáculo ou do hiper. Resisto quanto ao eu. É uma questão de intimidade. Outro dia, encontrei um senhor que falava latim, embora não recebesse auxílio-moradia. Ele me disse:

– Nunca mais diga eu.

– Mas eu nunca digo tu.

– Não se faça de tonto. Esqueça o seu eu – ele determinou.

– Não posso. Seria uma traição. Estamos juntos há 54 anos.

– Mate-o.

– Seria suicídio, assassinato ou eutanásia?

– Você diz eu ad satiem – ele sentenciou.

Fui batido. Não queria acrescentar um eu ao meu já elevado número de crimes contra a humildade. Nesse clima, fui ver Os realistas, peça de Will Eno, considerado um novo Samuel Beckett, com Débora Bloch, no teatro São Pedro. É um texto sobre gente comum, medíocre, como eu. Não direi como nós para não ofender quem não conheço nem despertar a ira do meu primeiro editor. Eu tinha rebatido uma chute forte de cabeça no sábado à tarde. Tento acabar com o futebol. Ele ainda vai acabar comigo. Dormi durante o espetáculo. Não fui culpa da peça, que, segundo li, teve uma interpretação incrível. Também não foi culpa da comparação com Beckett, embora, há anos, em Paris, eu também tenha dormido numa peça que levava o nome dele.

Um sono devastador me agarrou. Eu lutava para não dormir. O sono, porém, era doentio. Cheguei a pensar em tirar os sapatos. O que tinham os sapatos a ver com meu sono? Não sei. Sucumbi. Cabeceei. Pode haver sensação mais desagradável? A gente só pensa na cama, cercado de estranhos, sem poder virar para o lado, correndo o risco de roncar. Chega a ser indecente. Mesmo assim, guardei alguns diálogos engraçados. O texto era muito inteligente. Acabei, de madrugada, pensando no eu, mas não em mim, se me faço entender. Não, certamente, não me faço. Pode haver “eu” sem mim. Claro que pode, pois cada um tem o seu. De tanto pensar nisso, acordei e tive uma intuição profunda: dormi na peça porque ela me revelava. Boicotei.

Reli a frase do poeta rebelde Jean-Arthur Rimbaud: “O eu é um outro”. Quem? Brad Pitt, Neymar, Eduardo Cunha, Lula ou Michel Temer? Dependendo do outro e das convicções dos homens da lei, melhor não sair da mesmice do próprio eu. Rimbaud foi traficar armas na África. Eu ando traficando poesias.

O outro sou eu em temporada de férias.