Em defesa do juiz ladrão
Nelson Rodrigues defendia o juiz ladrão.
Eu também.
O árbitro de futebol, claro.
Sem ele, tudo fica sem graça.
O melhor desta Copa do Mundo foram as holandesas de laranja levadas para a delegacia e os erros dos árbitros em favor da Alemanha e da Argentina.
Poderia ter sido também em favor da Inglaterra ou de qualquer outro.
O bom do futebol é a imperfeição humana, o erro que gera polêmica.
Sem a mão de Deus de Maradona e a mão de gato de Thierry Henri, haveria menos coisas divertidas para comentar.
A Fifa precisa resistir aos positivistas que defendem a tecnologia para eliminar os erros.
Nada como a regra do impedimento para causar arrepios.
Está lá o bandeirinha, só, mais solitário do que um cusco caído de um caminhão, diante de um atacante veloz e de uma defesa malandra. Cabe ao bandeira erguer o braço numa fração de segundos tendo atrás de si uma multidão impiedosa.
O bandeirinha é um cão sarnento. Se erra, leva chute e cusparadas.
Se acerta, ninguém o nota.
A possibilidade do erro faz do futebol uma arte maior.
O árbitro tem um valor simbólico decisivo para as sociedades hipermodernas.
Recebe nossas descargas de ódio. Serve de alvo para a nossa ironia. Descarregamos nele os nossos piores sentimentos. Graças a ele, passamos por uma catarse.
O árbitro é um de nós. Erra como nós, apanha como nós, sofre como nós.
E nos dá assunto para meses, semanas, anos, vidas inteiras.
Eu sou a favor de uma estátua para o árbitro ladrão.