Em que ano estamos?

Em que ano estamos?

Manobras políticas fazem pensar em 1963 ou 1964

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      No salão, pois ainda há bailes de salão, ouve-se: “O Benedito brigou com Benedita/Foi parar com ela no distrito/Agora o delegado quer saber quem tem razão/Será o Benedito?/Formou-se a confusão lá dentro do distrito”. Nas ruas, a multidão canta: “Bandeira branca, amor, eu peço paz”. Em Brasília, mandam militares. Parece 1964 ou depois. Uns conspiram. Parece 1963 ou 1964. Outros açulam o povo contra o Congresso Nacional. Fala-se em autogolpe e numa manifestação para meados de março. A democracia balança.

Em que anos estamos? 1963? 1964?

      O general Heleno, braço direito do capitão Bolsonaro no poder, atacou o parlamento. Chamou os representantes eleitos de chantagistas. Dirigiu-lhe um sonoro palavrão começando com a letra “f”. Os bolsonaristas resolveram organizar uma manifestação para 15 de março contra o Congresso Nacional. Alimenta-se o velho sonho de governar sem intermediários, algo que amparou a crianção do Estado Novo, em 1937. Um filho do presidente já teorizou sobre o fechamento do Supremo Tribunal Federal. O poderoso ministro da Fazenda, Paulo Guedes, admirador do modelo econômico e social de Pinochet, conjecturou sobre a volta do AI-5, a medida que conseguiu transformar o horrível em muito pior. Um senador foi baleado por policiais militares amotinados.

      O presidente manda bananas para a mídia, insulta jornalistas, distribui impropérios, ignora ou tenta abafar as confusões dos filhos e militariza cada mais o seu entorno. No auge da festa de Momo, quando tudo se confundia e estremecia, repassou a amigos e aliados um vídeo que prega uma rebelião contra o Congresso Nacional. A lei 1.079, de 10 de abril de 1950, define como crime de responsabilidade do presidente da República atos contra “o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário e dos poderes constitucionais dos Estados”.

      Em 1965, Gustavo Corção, um dos gurus dos mestres fardados de Jair Bolsonaro, escreveu: Eu não considero [as eleições] de modo algum como um espetáculo cívico edificante e significativo da estrutura democrática do nosso regime. Ao contrário, considero-a expressiva de nossa patologia política ... Vontade geral, pronunciamento infalível das urnas, etc., não fazem parte de meu credo democrático”. Ele defendia os chamados “valores da cultura ocidental”. A democracia representativa não lhe descia bem. Ele chegaria a dizer: “A ditadura é um mal menor ... São boas como remédio amargo ... [É eficaz] se promover a verdadeira redemocratização pela eliminação da indisciplina que vai dos quartéis até às universidades e pelo afastamento dos elementos perniciosos”. Em 1964, uma marchinha entoava: “Teu nome é mentira, é falsidade. Porém, na minha vida teu nome é saudade”.

      Em que ano estamos? Novamente nos idos de março? Numa rede social, Olavo de Carvalho, o novo Corção, disparou sobre o golpe de Heleno: “Vazar a mensagem foi cachorrada, mas o conteúdo dela eu aprovo cem por cento. Um congresso que em vez de representar o povo só trata de roubá-lo e oprimi-lo não tem autoridade nenhuma. Parabéns, general”. O presidente da República, ao disseminar o vídeo de apoio à manifestação em favor do seu ministro fardado, também assina embaixo. Fez isso pelo WhatsApp. Ah, estamos mesmo em 2020. Será o Benedito? Só que, descoberto, o presidente tentou culpar a jornalista que noticiou sua manobra tecnológica e política. Mentiu que o vídeo era de 2015. Foi logo desmentido. De quem é a culpa? Será do Benedito?

 

 

 

 


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