Empatia é obrigação
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Empatia é obrigação

Governante precisa sentir a dor de todo mundo

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      Há um poder da palavra. A psicanálise sabe disso. Poder de dizer para se aliviar e de ouvir para se consolar. Existem pessoas que desenvolvem muito essa capacidade de falar para estimular, fazer crer e dar esperanças. Eu, que faço parte do grupo dos ditos contidos, ganho muito quando abro o coração. O simples fato de enunciar o que me angustia funciona como um remédio. Ouvir também me garante bons momentos. Adoro escutar quem constrói uma narrativa de libertação. Colocar em pé uma fala que dê confiança a quem sofre é uma arte.

      O cronista, de certa forma, tem a obrigação de saber ouvir e falar. Certas crônicas precisam servir de amparo. Outras, devem traduzir sentimentos. Há quem prefira a objetividade, a análise, o dado novo, a informação. Como não aplaudir? Existe, porém, uma força da subjetividade, do discurso afetivo, do emocional. Adoramos pensar que somos racionais. Algumas vezes, conseguimos. Boa parte do tempo, no entanto, determinamos nossas ações e escolhas a partir de nossas emoções. A modernidade, surgida com o racionalismo de Descartes, imaginou um homem consciente, sujeito da razão, dominador da natureza. Nietzsche e Freud, entre outros grandes pioneiros, acabaram com essa ilusão. Os rastros de um imaginário tornado “verdade” custam a morrer.

      A palavra mais importante deste momento de crise é empatia. Diante de uma doença nova, sem medicação ou vacina que lhe barre o caminho, a empatia converteu-se no maior bálsamo. Alguém escreve para falar de um remédio usado na França. Não diz que funciona realmente. Usa a notícia para apostar no futuro. Por um instante, a mente se enche de alegria e uma luz cintila na janela. Outro, com doçura, lista casos de recuperação em todas as idades, especialmente dos 50 aos cem anos. Um terceiro, depois de se apresentar como um desconhecido, revela-se um amigo pelo simples fato de ser um leitor assíduo. Diz candidamente: “Sei desde sempre que tudo vai terminar bem”. Ser humano é amparar.

      A antropologia já mostrou que em certas culturas, que por ser diferentes foram chamados de primitivas, há “funções” especiais: receber a descarga de todos os fracassos ou dizer a palavra que ajuda. De certo modo, essa deve ser a primeira atribuição de um presidente da República. Quando tudo vai mal e não se conhece a saída, conduzir pela palavra que mobiliza e diminui o sofrimento se torna política de Estado. Há coisas que não se diz e outras que se diz somente por seu poder lenitivo. O líder comanda, toma a frente, grita avante ou, quando nada disso é possível, consola, serena os ânimos, acena com a esperança, compartilha a dor que não consegue eliminar com um ato.

      Georges Balandier via no poder uma encenação. Toda vida social é, em certa medida, um teatro no qual cada um desempenha um papel. O homem que encarna o poder supremo, aquele que atua como protagonista, tem por missão concentrar na sua figura todas as esperanças do povo. Nos momentos mais difíceis, cabe-lhe encontrar as palavras que soem como uma consolação. Cabe-lhe repetir: faço minha a dor de todos vocês.  Deve sentir a dor que os demais deveras sentem.