Juremir Machado da Silva

Encontrei meu mestre em Palomas

Encontrei meu mestre em Palomas

Fui a Livramento.
Passei pelo cerro de Palomas.
Era madrugada.
Nada vi.
Não vi com os olhos normais.
Dentro do ônibus, senti-me transportado.
Faz sentido.
Fiz uma caminhada virtual e espiritual até o alto do cerro.
Eu pretendia fazer o caminho de Livramento até o cerro a pé, quase 20 km.
Mas sou prático.
Fiquei só com os últimos 500 metros.
Havia uma luz que furava a escuridão de modo vertical.
Cheguei a pensar que era a eletrificação rural.
Percebi que a luz era diferente.
Avancei penosamente pela trilha.
No alto do morro, sentado num vasto pelego, que parecia ser de um animal sobrenatural, estava meu mestre.
Como todos sabem, ele se chama Guma, Gumercindo, mas é conhecido por G.
G. é o oráculo de Palomas.
Ao me ver, murmurou:
– Quem vai sempre pode voltar.
Fiquei abismado com a sua sabedoria.
Parei diante dele.
Falei:
– Mestre, preciso me abrir com o senhor.
– Faca, meu! – foi o seu único comentário.
– Mestre, preciso saber: algum dia serei patrono da Feira do Livro de Porto Alegre?
– Vai.
– Posso ficar tranquilo?
– Pode. Mas o caminho vai ser longo?
– Muito?
– Mais longo que laço de 12 braças.
– Quantos anos?
– Não sei. primeiro tu vais ganhar o Nobel.
– Ah, bom! – respirei aliviado. – Então nem é um caminho tão longo assim.
– Antes disso o Corinthians será campeão da Libertadores.
– Mestre, vou escrever novos livros.
– Isso pode atrapalhar um pouco.
– Mestre, indique-me o caminho.
– Só tem um.
– Só um.
– É, um só, essa estradinha por onde tu vieste, bagual.
– Devo temer alguma coisa.
– Temer, não sei. Tomar, sim. Vai um mate?
– É muito amargo. Mestre, quando eu estava subindo passei por uma tartaruga. O que isso significa?
– Um sinal.
– Um sinal!?
– Sim, um cágado.
– Cagado?
– Cágado.
– Que sinal é esse?
– Que deves evitar os prêmios e as honrarias. Teu maior prêmio é a maldição. Não deves tentar fugir do teu destino.
– Mestre, que seria de mim sem ti?
– Tchê, para de frescura.
– Posso voltar aqui?
– Te arranca, índio velho.
– Estou sentindo uma energia estranha. Posso sentir junto com o senhor no seu pelego?
– Sentir?
– Sentir e sentar.
– Tô te estranhando, vivente.
– Será que o aleph está no seu pelego?
– O aleph, não sei. Tinha percevejo, mas já tirei.