Encontro com o mestre sob o umbu sagrado
Cheguei ao umbu sagrado com os pés sangrando.
Havia trilhado seis quilômetros de pés descalços.
Deveria ter feito 42, mas peguei o ônibus.
Meu mestre G., o oráculo de Palomas, me esperava de cócoras, atrás de umas moitas mais altas.
Quando me viu, abriu um sorriso.
– Chegaste bem na hora, vivente.
Fiquei excitado (no sentido não sexual dessa palavra).
Teria ele algo importante para me revelar.
– Diga, mestre, estou aqui para ouvi-lo.
– Me passa algum sabugo de milho daí ou umas carquejas limpinhas daquele lado ali.
– Sabugo? Carquejas?
Imaginei que no passado tivessem sido elementos importantes de uma cultura espiritualizada.
– Tive um desarranjo intestinal, vivente. Não uso papel. Só me limpo com produtos naturais.
Fiquei embaraçado.
– Não fica aí com essa cara de guriazinha constrangida, vivente. Nunca viste um homem fazendo suas necessidades? Nunca te limpaste com um sabugo?
– Bem...
– Nem bem nem mal, vivente. Em outra vida, foste um corvo. Vivias de comer carne podre.
– Está brincando comigo?
– Eu? Não brinco quando estou fazendo coisa séria.
– Corvo?
– Noutra vida anterior, foste veado.
– Viado?
– Viado foi noutra vida ainda, umas três antes daquela em que foste veado. Por causa disso queriam te comer vivo e te queimaram numa fogueira.
– Estou chocado, mestre. Acho que vou vomitar.
– Vomita ali mais para o lado. Isto aqui está ficando pior que banheiro de boteco de bêbado.
– Mestre, o senhor tem certeza de tudo o que disse?
– Não viste o sinal?
– Sinal?
– Na tua testa.
– Na minha testa?
– Tem umas marquinhas de guampa na tua cabeça. Se não foste veado, foste corno.
Amparei-me no umbu sagrado.
Guma soltou uma gargalhada.
– Gostas de te agarrar no tronco, vivente.
Fiquei ainda mais confuso.
– Tchê, tu não foste veado nem corvo.
– Não?
– Foste burro.
– Asno?
– Isso mesmo. Não vês que só estou te sacaneando, tchê!