ENEM: os paulistas são melhores do que os gaúchos?
Caro Juremir, como teu aluno e leitor, tomei a liberdade de ocupar teu
precioso tempo e reforçar a tua reflexão sobre o que poderíamos definir
como invasão paulista nos cursos superiores mais procurados pela elite
gaúcha, por conta dos critérios de seleção via ENEM. Confesso que ontem
só li parte do noticiário sobre o tema, mostrando que 30% dos estudantes
de Medicina da Universidade de Ciências da Saúde de Porto Alegre virão
do estado mais rico e poderoso do país. O estado da Avenida Paulista, de
onde são ditadas a política econômica e finnceira do país, em consenso
com a elite do ABC, o grupo político que legaliza o negócio. Mas enfim,
ano passado, acompanhei alguns artigos sobre o tema do ENEM, das quotas
e a pelo menos em um caso respondi e vi publicada minha crítica, neste
caso a um artigo do professor Régis, da edição on line da Zero Hora.
Fundador de cursinhos e de colégios, os mais caros, e que têm como meta
colocar as meninas e meninos mais rico aqui aqui do Estado, nos
principais cursos da UFRGS, Regis argumentou que o ENEM era o fim, que
iria acabar com seleção criteriosa do vestibular, desestimulava "o
ensino de qualidade e o aluno estudioso" que na opinião dele, Régis,
coloca "os melhores" nos bancos do curso superior.
Respondi que de fato o Enem poderia não ser um critério ideal de
seleção, mas os critérios que o professor Régis defende são bem mais
injustos. Ou seja, ele quer as vagas dos melhores cursos para os alunos
do sistema de preparação que ele desenvolveu e estimulou. Nesta história
dos paulistas o que ocorre é isto. Morei em São Paulo vários anos,
conheço aquli lá relativamente bem e se a gurizada paulista resolver
entrar na Mediicina da UFRGS pelo critério do vestibular, que é o
critério defendido pelo professor Régis, muito provavelmente eles
ocuparção boa parte das vagas e se resolverem pegar a maior parte
dessas, possivelmente também o conseguirão. Por que? porque há uma elite
em São Paulo que montou uma rede de escolas de ensimo fundamental e de
ensino médio com um nível de preparação de alunos, sem comparação no
país. Existem umas seis instituições de ensino na cidade de São Paulo,
que por valores peuniários altíssimos, que chegam a triplicar, em
relação às escolas do particulares mais caras aqui do Estado, impõem um
padrão de ensino muito acima do que nós conseguimos imprimir aqui. Não é
incomum, o aproveitamento de detentores de títulos de mestres e até
doutores, retirados de instituições de ensino superior, por salários
convidativos, só para preparar essa gurizada para bombar na
universidade. Não vejo nada demais nisto. O liberalismo permite essas
alçadas de voos mais ousadas.
A distorção é que o governo brasileiro investe pessimamente na educação.
Seria obrigação do estado copiar um pouco os currículos e forma de
ensinar dessas escolas da elite paulistana, que nivelam os seus alunos
por cima. Os estumulam a fazer pelo menos um ano de estudos no exterior
para complementar o padrão de conhecimento. A injustiça na verdade está
na ausência de igualdade de condições. Todos deveriam ter acesso a um
ensino de alto nível.. No final das contas, o que preocupa os donos dos
cursinhos e escolas frequentados pelos mauricinhos e patricinhas aqui de
Porto Alegre é o fato de que descobriram - aliás eles já sabiam, só não
falavam - que têm escolas em outros pontos país que entregam um produto
com acabamento bem superior na hora de disputar uma vaga em Medicina.
Eles terão de começar tudo de novo e melhorar a qualidade do sistema que
criaram o que demanda melhores currículos, melhores professores, mais
caros por sinal, o que eleva o patamar de custos, de preços enfim, muda
o perfil da indústria. Dá trabalho mesmo.
Talvez a elite gaúcha, passe considerar mais simples mandar seus filhos
para os bancos escolares das instituições paulistas, por que não? tudo
pode acontecer. A verdade é que a porta de um negócio que era vendido
como certeza de sucesso foi arrombada. Agora, o vilão não é mais o
sistema de quotas, mas o fato de que dentro do país qualquer pessoa pode
almejar sua vaga na instituição de ensino que considerar mais
interessante. Muito salutar por sinal, em tempos de democracia. Quota
gaudéria? Isto é conversa para cavalgada do mar. Enquanto os cavalos
agonizam.
Um abraço
Fernando de Castro
Caro Juremir:
Quinta à noite, peguei o “bonde andando” quando comecei a assistir, em emissora de tv local, debate sobre o ENEN. Participavam do debate professores, sendo um deles dono de cursinho pré-vestibular – penso que é o mesmo a que te referes em tua coluna de hoje – que tripudiavam em cima de um pobre representante do MEC, muito frado, diga-se de passagem, para enfrentar “cobras criadas”.
Como sempre, tua esclarecedora coluna ajudou-me a entender o porquê de tanta indignação de um dos participantes do debate em relação ao ENEN. Essa indignação é a mesma que aparece em piadas, de muito mau gosto, contra Lula. Certamente essa gente toda tem algo a perder, pois não passam, em sua maioria, de “atravessadores”, ou seja, alguém que está lucrando com atividade desnecessária, tipo dono de imobiliária, já que os proprietários poderiam muito bem administrar seus imóveis. E eles menosprezam nossa inteligência, pois, como dizes, atacam o que eles mesmos defendem, considerando-se a questão das cotas.
O pior disso, é que muita gente engole o blá blá blá deles, até mesmo pessoas prejudicadas com a situação que eles criaram, como um rapaz de 17 anos, sobrinho de uma colega de trabalho, que concluiu o Ensino Médio em 2009, fez vestibular, não passou e, agora, está infeliz porque não tem dinheiro para pagar cursinho pré-vestibular, ou seja, não tem uma das ferramentas que passaram a ser empregadas na competição por uma vaga na universidade pública e gratuita, que deveria ser para aqueles egressos do Ensino Médio sem a necessidade de recursos para torná-los melhores, pois sabemos que tornar-se melhor exige recursos econômicos, o que poucos têm.
Baiard