Juremir Machado da Silva

Enem, petróleo e oportunismo gaúcho

Enem, petróleo e oportunismo gaúcho

Os gaúchos querem ser malandros.
Desejam ficar com a grana do petróleo dos Estados produtores, mas não querem perder vagas nos seus feudos universitários para estudantes mais preparados de fora.
Ibsen Pinheiro é um esperto.
Se o petróleo fosse produzido em Torres, por exemplo, ele não se lembraria de que pela Constituição o mar é da União. E não apresentaria projeto algum.
Mas estou com ele: vamos distribuir esse dinheiro.
A riqueza nacional deve ser compartilhada.
As universidades também.
Há pessoas contra o Prouni. Acham que só universidades públicas têm qualidades. É conversa fiada.
Tem instituição privada ruim e instituição pública péssima. Todo mundo sabe disso. Depende de curso, região, instituição, vergonha na cara e tipo de estabelecimento.
Donos de cursinho não deveriam participar de debates sobre modalidades de ingresso na universidade.
É chamar a raposa ladina para discutir a melhor maneira de qualificar e organizar o galinheiro.
Nada contra os cursinhos. Eles são legítimos.
Pagam impostos. Fazem um bom trabalho.
Mas o negócio deles é ganhar dinheiro com um tipo de preparação que se alimenta das falhas do ensino médio e do vestibular, que é um mecanismo perverso de escolha.
O que vai dizer um dono de cursinho: que o vestibular é o único sistema universal e perfeito.
Nesse caso, não pode vir dizer que deve existir um “universal gaúcho”, opondo-se a um exame nacional.
A gauchada, como sempre, não quer perder os seus privilégios. A UFRGS e alguns cursinhos formam um par.
As cotas e outras modificações começam a produzir uma quebra na dominação branca e de classe média para cima de alguns cursos, os cursos de “elite”.
O vestibular é um sistema de hierarquia social.
Não mede inteligência antes de tudo.
Mede condições desiguais de preparação.
Os cursinhos exploram esse darwinismo cruel.
Engraçado é ver estudantes adversários das cotas divulgando fotos das casas de cotistas. Essas fotos mostram desvios no modelo que precisam ser corrigidos. Abrem, no entanto, caminho para que sejam mostradas fotos da casas de todos os estudantes dos melhores cursos das universidades públicas, filhos das famílias mais abastadas, que não pagam para estar ali.
Seria fácil corrigir isso até no sistema tradicional de vestibular: passou, mostra o contracheque da família. A partir de determinado valor, paga “x” ou “y”.
O episódio dos aprovados do Enem tomando lugar de gaúchos em universidades gaúchas desmascara a falsa defesa do universal – só os “melhores” devem entrar – feita até agora. De repente, com a indignação de sempre, os gaúchos passaram a defender limites na competição. Querem barreiras. Temas locais. Proteção contra forasteiros. Reserva de vagas. Cotas regionais.
Os adversários das cotas, do Prouni e do Enem só querem defender velhos privilégios.
Desejam que todos continuem a pagar os cursos de quem não precisa.
Alguns, contudo, querem a universalização da universidade pública. Só para implicar com as privadas.
País decente não precisa de vestibular.
Precisa de um exame nacional de saída do ensino médio e de vagas nas universidades para todos os aprovados. Custa caro. A sociedade deve pagar. O Brasil está a caminho. Toda revolução encontra resistência do antigo regime.