Sabe-se desde a antiguidade que tudo é cíclico. Lei do retorno. Depois de muito tempo de desprestígio, os enlatados estão de volta. Não estou falando apenas de novelas de televisão requentadas. Nem dos enlatados hipermodernos que são as séries da Netflix. Mas de comida enlatada. Antes, nos supermercados europeus, os enlatados ficavam meio escondidos no fundo das prateleiras. Agora, com a pandemia, estão em primeiro plano. O jornal britânico “The Guardian” dedicou uma reportagem e essa nova onda do enlatado. Tem até festival de verão.
“The Guardian”, considerado por muitos como comunista, assim como alguns veículos ingleses enxergam um lado comunista em Jair Bolsonaro, resumiu assim a situação: “Como os compradores britânicos da Covid-19 em pânico desencadearam um renascimento da comida enlatada. Festival dedicado à comida aclama o renascimento dos produtos enlatados, já que as vendas de itens básicos para armários disparam 72%”. Que tal explorar esse nicho de mercado em alta? Mocotó enlatado teria comprador? Tudo vira. Não duvido que o escritor Charles Bukowski, nascido há em cem anos, em 16 de agosto de 1920, conhecido como “velho safado”, por suas histórias apimentadas, vire enlatado algum dia. Afinal de contas, o que os enlatados têm de apetitoso?
Em princípio, a segurança. Influenciadores foram contratados para divulgar nas redes sociais e na mídia a autenticidade da comida em lata: “O anfitrião do chamado festival ‘Love Canned Food’ é o chef da TV com estrela Michelin, Phil Vickery, que, em uma sessão de cozimento ao vivo, irá preparar um dal de cinco grãos (enlatado, é claro)”. Enlatado agora é fashion e desperta lembranças afetivas dignas de moldura: “Meus pais cresceram nos anos da guerra e, como um mimo, minha avó costumava servir salmão enlatado com cebola em conserva - aparentemente o auge da sofisticação”, contou Vickery.
Minha memória de enlatados se resume a sardinhas e pêssegos. Jovem estudante em Porto Alegre, dilapidei cestas de Natal que, por alguma razão, meu primo tinha embaixo da cama, no Sarandi, e devorei todos os enlatados. Não posso ver sardinha que enjoo. Em Paris, nos primeiros meses de contingenciamento financeiro, nossa sobremesa era sempre pêssego em lata com creme de leite. Deve ser daí que vem meu interesse por enlatados. O chef Vickery ama os enlatados: “Hoje gosto de usar vegetais enlatados como espinafre, batata e grão de bico para fazer um curry rápido e saboroso, enquanto um pilaf de arroz feito com carne de porco enlatada também é um dos meus favoritos”. Que coisa!
Em tempos de confinamento, participando de “lives” que mostram a vivacidade das folhas de outono, a volta dos enlatados deveria ter sido prevista pelos intelectuais, os principais beneficiados por essa retomada. Confesso, essa matéria do Guardian me fascinou. Há algo enlatado na minha alma. Nick Saltmarsh, diretor-gerente da Hodmedod, deu esta declaração emocionante: “Há muito pensamos que as latas são subestimadas como forma de preservar alimentos cozidos, até porque o as próprias latas são muito fáceis e eficientes de reciclar”.