Juremir Machado da Silva

Ensaio sobre o (des)entendimento humano

Seres humanos trapaceiam e se enganam

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      O ser humano nem sempre é demasiadamente humano. Não é preciso ser super-homem para compreender que os humanos trapaceiam. Os furadores da fila da vacina estão aí para não me deixar mentir. Eles merecem opróbrio em praça pública. Em “Ensaio acerca do entendimento humano”, o britânico John Locke filosofou em altíssimo nível. Ele escreveu isto: “As essências são incriáveis e incorruptíveis”. Tomo a afirmação com humor: estão nos faltando essências. Pena que são incriáveis. Precisamos nos virar com o que temos, o que é assustador, salvo para quem dorme tranquilo apesar dos pesares e até dos azares.

      Um empresário disse que o Brasil precisa de um presidente da Câmara dos Deputados decente para tocar as reformas de que o país necessita. Salvo engano meu o candidato dele é Arthur Lira. Por aqui, o pragmatismo costuma sugerir que a moral não é essencial. Ou, melhor, que é uma essência inalcançável e possivelmente incriável. Estou brincando com a ideia de Locke. Como se diz, rindo para não chorar. Sei muito bem que Locke estava falando de coisas muito sérias e que não cabem no entendimento que escolhi dar aqui. Assisti a um vídeo no qual trabalhadores da saúde, na vila Cruzeiro, em Porto Alegre, cobravam da chefe prioridade no recebimento da vacina contra a Covid. Gente da linha de frente. A gestora defendia-se alegando respeitar determinações superiores. Eu me senti inferior. Incapaz de compreender o raciocínio.

      Locke não poderia explicar o Brasil. Quem faz isso é o antropólogo Roberto DaMatta. Continua valendo o “você sabe com quem está falando”. É o salvo-conduto para tudo, até para vacinar a “mulher da minha vida” antes dos que lutam contra a morte nos hospitais da vida. Gente ruim. Mudo de pensador. Melhor ir logo de Thomas Hobbes. Não repetirei que “o homem é o lobo do homem”. Teria mais interesse no ponto de vista do lobo sobre o homem. Fico com outra frase de Hobbes: “O desprezo pela boa reputação chama-se imprudência”. Aqui, entre nós, chama-se ganância, cara de pau, falta de vergonha, impunidade, sacanagem. Hobbes vai além: “A tristeza perante a desgraça alheia chama-se piedade, e surge do imaginar que a mesma desgraça poderia acontecer a nós mesmos. Por isso é também chamada compaixão, ou então, na expressão atualmente em voga, de companheirismo”. Pobre ingênuo.

      Aqui o cara passa na frente, não pensa no outro, dá uma banana para o companheirismo, ignora a compaixão, fecha os olhos para a desgraça alheia e não sente tristeza com as dores dos outros. Locke e Hobbes não conheceram a essência incriável da nossa filosofia: meu pirão primeiro. Estou pessimista? Clichês? Conforme quem está falando isso ganha outros nomes: pragmatismo, realismo, instinto de sobrevivência. Por essas razões é possível que muitos tenham o seu corrupto de estimação, que, mesmo não sendo honesto, pode ser considerado bom e defensável. Basta que sirva aos seus interesses. Diante de qualquer crítica essencial, a resposta vem pronta: o fulano também fez. E assim todos se tornam essencialmente decentes e úteis.