Entrevista com Maurice Dantec
O escritor francês Maurice Dantec, autor do romance policial de ficção científica “Raízes do mal” (Sulina), vive no Canadá. Fiz uma entrevista com ele por e-mail. É sempre muito interessante passar da obra ao autor e do autor ao seu mundo. O resultado, neste caso, é uma metralhadora impiedosa que nada poupa. Dantec não mede palavras. Elas as usa para atacar. Show de bola.
– Por que morar no Canadá depois de ter, junto com Michel Houellebecq, sacudido a literatura francesa? É a sina do “escritor maldito”, que desde Rimbaud precisa partir?
Dantec – Eu não me considero um escritor maldito. Sou um privilegiado. Saí da França porque esse país não me interessava mais e marchava direto contra o muro. Eu sabia que o meu destino estava em outro lugar. Nunca me senti completamente francês. Deve ter contado para isso as origens célticas da minha mãe e a influência russa e americana na minha infância. Viver no Canadá não significa estar “isolado. Basta viver um mês em Paris e outro em Montreal para compreender bem a diferença.
– Escritor célebre e marginal e marginal ao mesmo tempo, os seus livros vendem como pão quente e são adaptados para o cinema. “Raízes do mal” revela um quadro sombrio do mundo contemporâneo. É o romance de um escritor engajado decidido a denunciar as misérias do mundo?
Dantec – Como pão quente! Não tão depressa. Não sou Marc Lévy nem Michel Houellebecq, Frédéric Beigbeder ou Bernard Werber. Vendo como uma boa e velha fábrica de armas. Meus modelos mais antigos continuam tendo mercado no mundo num bom ritmo. Os novos não viram “best-sellers” imediatamente, mas seguem nessa direção ao longo do tempo. Certo, dois livros meus foram adaptados para o cinema, mas visto o que o cinema francês fez deles, teria sido melhor deixar para lá. Eu sou “célebre”, quer dizer, sou conhecido por certo número de pessoas, entre as quais os meus leitores. E os meus inimigos. Marginal? É um rótulo reivindicado por todo mundo atualmente. A margem tornou-se o centro. Quem não é rebelde hoje? Quem não é “radical”? Quem não usa uma camiseta com a estampa de Che Guevara ou com um Free Tibet ao mesmo tempo em que lê o seu jornal “alternativo” na sua sala com móveis Ikéa? Não acredito em escritores “engajados”. Não sou Simone Sartre nem Jean-Paul de Beauvoir. As “misérias” do mundo me interessam muito pouco em si mesmas. E ainda menos as pretensas “soluções” que nos são propostas para eliminá-las. A guerra, a violência, o ódio e o crime são constantes na humanidade desde o pecado original. Isso tudo é o pano de fundo “natural” dos meus livros.
– Autodenominado escritor francês de alma americana, em que a literatura francesa o desagrada?
Dantec – Eu disse, na verdade, que sou “um escritor norteamericano de língua francesa”. Mas a sua redefinição não me desagrada. Isso nada tem a ver com a literatura francesa, de resto, que eu admiro até certa época, ou seja, enquanto ela existiu. Uma literatura não ressurge das cinzas por magia. Aliás, uma literatura não pode emergir de um país que apagou a sua própria história.
– Escritor polêmico, associado, às vezes, à direita ou mesmo à extrema-direita, seu livro “Raízes do mal” não revela, porém, qualquer postura ideológica afirmada.
Maurice Dantec – Na França, se você defende o povo judeu, você é chamado de nazista. Se defende a singularidade da civilização européia, é rotulado de eurocêntrico. Se defende o cristianismo, é chamado de fascista. Se defende os Estados Unidos, é chamado de imperialista. Em contrapartida, você tem todo o direito, até mesmo a “legitimidade”, de ser antissemita, defensor do islamismo, comunista, trotskista, anarquista, ecolomístico ou de ser adepto de qualquer uma dessas maravilhosas ideologias que nos prometem um mundo melhor. Não separo ficção e ideias. Nada tenho a separar. A literatura é a única politika digna desse nome.
– O fato de ser um grande leitor de Gilles Deleuze, o que transparece nos seus livros, especialmente em “Raízes do mal”, não o caracteriza como um escrito bem francês?
Dantec – Gilles Deleuze é um filósofo. A sua única “nacionalidade” (natio, família em latim) é o pensamento.
– Diz-se que a literatura francesa morreu ou que é muito chata e sem ação. “Raízes do mal” é um livro repleto de ação. A verdadeira literatura agora é a policial?
Dantec – Não. É a minha (risos).
– Ser a favor da pena de morte, da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e contra o islamismo radical o caracteriza como um reacionário ou como um democrata?
Dantec – Defendo a pena de morte para os serial-killers, os assassinos de crianças, os que atiram contra a massa (como os bandidos mexicanos de Ciudad Juarez), os terroristas, os autores de genocídios, os criminosos de guerra e os que quem cometem crimes contra a humanidade. Fui claro? Não existe islamismo “radical”. Existe o islamismo e ponto. (Re)leia o Corão e verá. Está tudo lá com todas as letras. O islamismo é, ao mesmo tempo, o neototalitarismo sintético do século XXI e a origem arqueo-histórica de todos os totalitarismos. A democracia é a ditadura das massas. A “reação” é por definição um movimento “reativo”. Ora, até mesmo os mortos podem ter esse tipo de reflexo. Eu sou um católico futurista.
– Conhece escritores brasileiros?
– Dantec – Conheço mal a literatura brasileira. No universo latinoamericano, conheço melhor os escritores argentinos, chilenos ou mexicanos. Paradoxalmente por ser uma “terra incógnita” literária o Brasil continua no meu imaginário graças a filmes como “Aguirre” e algumas histórias em quadrinhos da minha infância. Ô Cangaceiros!
– A literatura está mesmo em crise? Seus livros são muito lidos apesar de serem uns verdadeiros “tijolos”.
Dantec – A crise faz parte da essência da literatura. Para ser realmente lido, o que vem a ser a única coisa importante para um escritor, é preciso roubar o banco, ou seja, tomar de assalto o cérebro dos leitores.
– Por que escrever? Por dinheiro ou para matar o tempo?
Dantec – Todo romance é uma forma de vida que exige vir à luz, ser posta no mundo. Em contrário, ela pode nos matar. É o mais implacável de todos os pactos.