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Entrevista com Roger Scruton

Filósofo do conservadorismo falou ao Caderno de Sábado

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Entrevista/Roger Scruton

“O conservadorismo é natural”

Convidado do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, o filósofo britânico Roger Scruton, 75 anos, esteve em Porto Alegre para falar do que mais sabe: estética. De quebra, fez o que mais gosta: criticar a esquerda. Autor de mais de 30 livros, dos quais muitos são best-sellers, guru do neoconservadorismo triunfante, polemista de texto fluente e língua afiada, Scruton tem vários livros publicados no Brasil, entre os quais “Beleza”, “A alma do mundo”, no qual disserta sobre o valor insubstituível do sagrado na vida das pessoas, e “Tolos, fraudes e militantes”. Na última semana, chegou “Conservadorismo” (Record). Nesta entrevista para Jacques Wainberg, professor da Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS, e Juremir Machado da Silva, ele defende as suas ideias e principalmente a importância do conservadorismo para a estabilidade social e cultural. A sua passagem pelo Brasil despertou enorme interesse de público e mídia.

 

Caderno de Sábado – O que explica todo esse interesse pela sua obra?

Roger Scruton – Acho que existe no Brasil muito interesse por algo novo, diferente. Quando se tem por muito tempo uma ênfase continuada na esquerda, as pessoas começam a perguntar se existe alguma alternativa. No meu caso, não se trata só de uma posição política diferente, mas de uma visão diferente do mundo. Nela, posso garantir, o desejo de respeito é central. A nossa civilização, compartilhada Europa e pela América, está em crise e a postura da esquerda faz parte dessa crise. Precisamos passar por essa crise para descobrir quem realmente nós somos e o que podemos fazer.

CS – Que crise é essa?

Scruton – Em primeiro lugar, perda de confiança em ser o que somos. Em seguida, algumas dúvidas sobre nossa religião e sobre a tradição que disso emana: nossas concepções de lei, de soberania e de ordem na vida social. Nossos oponentes têm conseguido nos fazer sentir culpa pelo que somos. A esquerda quer minar a confiança em nossos fundamentos. Só temos uma vida. Não faz sentido essa desconfiança. Temos de acreditar no que sempre fomos.

CS – O senhor escreveu um livro sobre a beleza, sobre julgamento estético. Acredita realmente numa hierarquia do gosto fundamentada objetivamente?

Scruton – Sim, naturalmente. Na arte, isso é muito óbvio. Qualquer pessoa que goste de música, sabe que existe música superior e música inferior. Não se pode dizer que tudo é igualmente interessante. O grande artista quer trazer consolação e encantamento às pessoas. Quer explorar a condição humana. Uma celebridade como Madonna não faz isso. Apenas chama atenção para si. A arte leva a uma experiência espiritual séria. Isso não acontece com o entretenimento. Portanto, não há como não pensar em hierarquia.

CS _ Beethoven é melhor do que Madonna. Mas a maioria prefere ouvir Madonna. O que fazer com isso? Aceitar a derrota do gosto da elite? Como convencer quem espontaneamente prefere uma coisa e não outra?

Scruton – Não podemos ditar o que as pessoas vão gostar. Mas é possível convencê-las de que o gosto delas não é do nível superior. É possível pedir que a pessoa deixe algum espaço para conhecer o bom gosto. Podemos pedir que deixem os seus filhos experimentarem a arte. Sabemos que a arte superior sempre foi minoritária. A civilização depende dessa minoria de bom gosto para sobreviver e surtir seus efeitos. Não é a maioria que fará a civilização continuar existindo. Temos de ter consciência disso tudo.

CS – O juízo do gosto, segundo Kant, deve ser desinteressado. Educar o gosto já não o direciona, não o torna automaticamente interessado?

Scruton – É uma pergunta técnica. Toda educação implica interessar alguém. Mas a forma mais elevada de fruição estética é a desinteressada. A arte pela arte. A educação precisa conduzir as pessoas a essa fruição desinteressada. É fundamental conseguir encantar-se espontaneamente.

CS – Toda educação do gosto não é uma forma de doutrinação, um modo interessado de direcionamento? Não há nisso um paradoxo? O desinteresse não estaria justamente na falta de enquadramento, na espontaneidade?

Scruton – Aristóteles diz que todo homem quer conhecer por conhecer. É natural querer saber como o mundo é propriamente deixando de lado os nossos interesses mais imediatos. A função do professor é essa: levar o estudante a descobrir o que não sabe sem relação com um interesse qualquer. Educar o gosto não é doutrinação, pois doutrinar é dizer no que se deve acreditar. Educar significar tomar um fenômeno e examiná-lo, discutir sobre o que ele representa, deixar a verdade emergir espontaneamente. Isso também vale para a educação do gosto pela arte. Diz-se: veja tal artista, ouça o que ele traz, considere a sua obra. A arte apresenta-se como uma revelação para quem aceita se abrir a ela.

CS – No campo político, passamos da fase da doutrinação?

Scruton – Não, não passamos. Em nossas universidades, especialmente nas ciências humanas, há uma predominância do ponto de vista da esquerda com todas as suas últimas variantes: feminismo radical, neutralidade de sexo, questão de gênero, essa nova ortodoxia. Quem discorda disso, arranja problema. Isso é verdade também no Brasil. É muito pior na Inglaterra, pois os brasileiros são um povo alegre que aprecia a diferença.

CS – Como explicar a onda conservadora brasileira?

Scruton – Não sei, pois não conheço bem a realidade brasileira. Mas a posição conservadora é natural. Há uma maneira natural de as pessoas se reproduzirem e viverem, baseada numa afeição espontânea e não ideológica. É simplesmente a vida. A ordem política emerge disso. O meu país está numa posição difícil. Observa-se, porém, que a maior parte da população britânica é conservadora. Os intelectuais é que não o são. Cresce, portanto, o fosso entre intelectuais e a maioria das pessoas comuns.

CS – Esquerda e direita, nesse aspecto, são muito diferentes? Uma não acusa a outra de ser ideológica? Ideologia é sempre o pensamento do outro?

Scruton – A postura conservadora não procura a redenção na política. Quem pensa assim é a esquerda. A política é só uma parte da vida. Não é o mais importante da existência. A esquerda acha que política é tudo. Uma parte da esquerda não acredita em Deus, não sem sentimento de transcendência, não pensa nos valores verdadeiros da vida: o belo, o amor, Deus, ser agradecido pela existência. Essa é a grande falha do esquerdismo. A visão conservadora não é ideológica. É prática. Nada a ver com a visão marxista.

CS – Como analisa o multiculturalismo na Europa?

Scruton – O multiculturalismo pertence ao mesmo tipo de problema de que falei antes. Fomos levados a desconfiar de nossa cultura dominante, majoritária. Passamos a dar prioridade às culturas de minorias. Devemos incorporar e aceitar as minorias, mas sem deixar de reconhecer a existência de culturas majoritárias. Estamos vivendo uma crise nessa relação entre maioria e minorias. Isso já aconteceu antes na história, por exemplo, na Europa Oriental, com o surgimento de seitas que enfrentaram a cultura dominante. Ocorreu no Oriente Médio, no Império Otomano, em outros lugares. Foi preciso aprender a conviver. Precisamos também aprender. A saída começa pelo reconhecimento da existência de uma cultura majoritária. Em nosso caso, trata-se de uma cultura do iluminismo, de valor universal.

CS – Existe uma crise na relação com os imigrantes islâmicos?

Scruton – Sim, em alguns países. Em outros, não. Parte do problema é que o mundo islâmico está em crise. É uma situação provocada pelos seus radicais. Os muçulmanos comuns também estão horrorizados com a radicalização que os atinge. Nesse sentido, sentem como qualquer um de nós. Essa crise de radicalização islâmica foi importada para a Europa.

CS – Como vê o governo de Donald Trump?

Scruton – Trump tem uma personalidade peculiar. Gera polêmica. Isso, porém, não significa que todas as suas políticas sejam ruins. Ele conseguiu unificar o país em torno da questão da imigração. Só os intelectuais da Costa Leste, que não vivem os problemas das pessoas comuns no cotidiano, é que não valorizam, por viés ideológico, seus acertos.