Juremir Machado da Silva

Entrevistas marcantes: Roberto DaMatta e os jeitinhos

"O Brasil não vai a lugar algum”

Polêmico, o antropólogo Roberto DaMatta, autor de Carnavais, Malandros e Her6is, A Casa e a Rua e O Que Faz o Brasil, Brasil?, vê a nação brasileira seguindo o caminho errado, rumo ao abismo, e aponta o Primeiro Mundo como modelo alternativo ao descalabro. Professor do Museu Nacional, do Rio de Janeiro, e da Universidade de Notre-Dame, nos Estados Unidos, DaMatta é célebre por suas interpretações inspiradas de fenômenos como o "jeitinho brasileiro". Em Paris, no inverno de 1992, ele concedeu esta entrevista.

JMS – O Brasil pode tornar-se moderno, ao que parece, de acordo com sua reflexão, em termos éticos e políticos. E economicamente ?


Roberto DaMatta – O Brasil precisa vencer as contradições entre moderno e tradicional. No momento, o tradicional é o que se faz escondido e o moderno é apenas fachada. Se no Brasil todo mundo tem amante, então, por que não se adota a poligamia, como entre certas culturas africanas? Discute-se uma nova moral sexual e social. A modernidade no caso ocidental, clássico, significou tornar positivo o que era negativo na Idade Média. O lucro era pecado. Tornou-se decente. Desde que pague uma cota social. Quanto mais se produz, mais a sociedade ganha. É o princípio da mão invisível ponho o dedo na ferida da classe média brasileira e toco na problemática dos intelectuais. Evidentemente, não se pode reproduzir no Brasil algo semelhante a Paris ou Nova Iorque. Cada americano tem dois automóveis. Ora, é impensável que cada homem no mundo possa vir a ter o mesmo.


A intelectualidade europeia está fazendo a crítica da modernidade. O senhor teve uma mostra disso no debate com Luc Ferry. O Primeiro Mundo apronta-se para sair da modernidade e o Terceiro Mundo continua precisando alcançá-la ?


R. M. – Eu quero que o Brasil chegue o mais rápido possível à modernidade. Primeiro, do ponto de vista político e ético. Quero uma notícia mais confiável, o Congresso Nacional funcionando e .o gerenciamento das instituições mais coerente, responsável e eficaz. Modernidade é coerência. Americano também fura sinal de trânsito e nos Estados Unidos também existem ladrões, mas os criminosos são punidos e não adianta dizer que se é irmão do fulano ou amigo do beltrano. Esse mínimo de operacionalidade só não se atinge no Brasil por falta de vergonha na cara. É um descompasso com a modernidade que está sendo abandonada na França; o fato de um professor universitário brasileiro ganhar mil dólares e um deputado federal, omisso, 16 mil dólares. Não pretendo que um parlamentar receba pouco. Mas convenhamos... Os deputados fazem os seus salários e o sistema educativo nem sequer é discutido.


O Brasil continua a confirmar a sua tese, expressa em A Casa e a Rua, segundo a qual há um comportamento válido em público e outro, antagônico, pr6prio ao espaço privado?


R. M. – Sem a menor dúvida. O governo Sarney exacerbou isso. Com Collor, esta posição ainda é mais visível. Houve liberdade na campanha política, polarização e a vitória do candidato que apresentou um discurso moderno. O não-cumprimento da modernidade do discurso enfatizou as contradições. Collor não é um político tradicional – ele não sabe jogar com o velho clientelismo de Sarney – - ao mesmo tempo não é moderno. Fernando Collor não pensa o individualismo de maneira positiva e não tem assessores. Acaba por não tirar partido do que seria o seu trunfo: uma nova maneira de governar. Caiu de quatro no toma-Iá-dá-cá ao qual foi empurrado. Sofre pressão de todos, da esquerda e da direita, para fazer um governo de grupos Ele não queria. Tinha tudo para mudar o estilo da política brasileira. Faltou-lhe assessoria.


Collor se mostrou bastante enturmado com a República das Alagoas, não ?


.R. M. – É um grupo muito pequeno, sem representatividade política. Este foi o engano do Collor, que ficou arcaicamente tradicional de um lado e isolado das turmas mais modernas do Brasil contemporâneo. Estas, apesar do caráter grupal, falam dos problemas nacionais. O político nordestino fala da seca e não que o açude construído com verbas públicas passa em suas terras. Nem todos os brasileiros, repito, terão carro Honda e televisão Sony.


O Brasil da era Collor está mais próximo da modernidade ou da sedução mística?


R. M. – O Brasil está próximo da modernidade e também da sedução mística. É um país amarrado na popa e na proa, com a máquina ligada. O Brasil não vai a lugar algum. Quanto mais falamos em modernidade, menos ela dá certo. A modernidade serve no Brasil para eleger político cretino, enriquecer empresário hipócrita e vender livro de intelectual sem-vergonha. Talvez um professor brasileiro não possa ter dedicação exclusiva, mas deverá dar aulas; o estudante tem que fazer exercícios. As universidades terão que possuir biblioteca. O moderno é comer a mulher do amigo. Minha filha, você precisa ser feminista. Pronto, come-se a garota. Mas se ela quiser algo mais: espera aí, não é assim, sou casado. Eis o Brasil. Moderno é furar a ética. Disto resulta o reforço aos padrões tradicionais. A insegurança leva às soluções místicas. Reza-se para Nosso Senhor do Bonfim, Nossa Senhora do Parto, procura-se o tarólogo ou o Chico Xavier. Falta a espiritualidade, a religião ligada com a ética, com a coerência. Se o casamento é monogâmico, não se pode ter amantes. Se sou filiado a um partido político, não posso simpatizar com outro; se pertenço a uma universidade, não posso lecionar em outras cinco.


O senhor ainda acredita no Brasil e tem dito que o "caso Zélia" pode ser revelador do fim de uma forma tradicional de fazer política. Em que sentido?


R. M. – Os episódios que envolvem Zélia Cardoso mostram que quem está no poder é igual a nós. A diferença na democracia não é de qualidade, mas de função. No Brasil, nós não aprendemos que em um momento uma determinada pessoa está na função de motorista de ônibus e no outro de aluno em uma universidade. Minha relação com essa pessoa será de passageiro ou de professor. Vamos entrar no século XXI pensando que quem é ministro o é em todos os lugares. Não é verdade. Ministro, como todos nós, tem franquezas e fraquezas. O "caso Zélia" demonstra claramente isto. Mulher ministra se apaixona por homem casado. Temos é que desconfiar de todo mundo que ocupa o poder, pois os humanos são suscetíveis a fragilidades. Vamos controlar através da exigência de transparência.


O senhor se diz um conservador, votou, faz sérias críticas ao conservadorismo da sociedade brasileira e defende um modelo social inspirado no liberalismo. Como conciliar tudo isso ?


R. M. – Votei no Collor porque ele tinha um discurso moderno. O discurso de Lula tinha um certo grau de modernidade, mas estava ligado a uma hierarquia corporativista que abomino. Eu me arrependi. Não voto mais na direita brasileira. E nem no centro. O Brasil necessita com urgência de um governo de esquerda. O mesmo que ocorreu no Chile. Claro, no Brasil terá de ser à brasileira, sem matar ninguém. Precisamos de um presidente de esquerda radical, de ministérios de esquerda e, a partir da experiência desenvolvida, chegar a uma crítica e a uma decepção; no balanço, como no Chile, optar pelo liberalismo bem-comportado. A experiência chilena é instrutiva. Depois dos radicalismos de esquerda e direita, descobriu-se as qualidades liberais.


Março de 1992 (O pensamento do fim do século, L&PM)