De repente, não mais que de repente, deixou de haver riso, deixou de haver beijo, deixou de haver abraços, e do espanto se fez a morte no centro da cidade cheia de visitantes enquanto a tarde avançava alegre para o momento dos encontros que ficariam tristemente sem despedidas. A música parou sem encanto e o silêncio que se impôs já era um canto aos inocentes mortos. De repente, não mais que de repente, a poesia não fazia mais sentido e o sentido era só pranto.
Então todos se perguntaram sem mover os lábios: como foi que a tolerância virou ódio e este se transformou em bandeira, lema, religião e verdade? De repente, mas não tão de repente assim, a influência virou plágio e este cobrou ágio e pedágio espalhando por contágio a ideologia do terror. Como foi possível que no coração das civilizações se implantasse a semente do pavor e germinasse de novo como se planta fosse o ovo da serpente? Como foi possível que virasse rotina, outro nome da sina, a surpresa da morte sem aviso prévio?
Onde foram parar os esforços de Voltaire contra a intolerância? Quando se apagaram as Luzes do sonho de convivência? Quem converteu automóveis em armas? Que desespero é esse que torna assassinos velhos, jovens e até meninos dominados por uma sede insaciável de eternidade? De repente, no estupor da realidade, muitos se questionaram: de quem é a culpa? Do Ocidente com suas intervenções, ocupações, missões e ingerências indevidas no mundo dos outros? De um certo Oriente com suas crenças “defasadas”? Da secularização dos tempos com sua falta de referências e por consequência uma reação de apego ao absoluto? Certamente a culpa não é dos que morrem. Nem dos que correm atônitos.
De repente, na elegância das Ramblas de Barcelona, fez-se o retumbante silêncio da morte e não houve sorte capaz de sofrear a mão assassina disfarçada de destino cobrando vidas que não lhe eram devidas. O terrorista, acossado por seus fantasmas, impulsionado por suas crenças, não descansa, não escolhe estação, desconhece fronteiras, disfarça-se, esgueira-se, prepara-se, espera e odeia a humanidade inteira quando ela não cabe na sua estreita visão de mundo.
Na sua morbidez insana o terrorista não suporta a festa, a alegria, a vida em seus transbordamentos, a efervescência desses momentos de um verão na existência de um ser passageiro. Alma sofrida, espalha sofrimento. Vinga-se? De quem? Sacrifica-se cruelmente aceitando até morrer para poder matar. O terrorista-suicida, por exemplo, não oferece valor de troca. Não pede resgate. Não negocia. Todos somos reféns da sua falta de amor pela vida. Entramos na era da segurança provisória: qual será a próxima cidade? Quem serão as próximas vítimas? Quem pagará pelo que não fez, não sente e não quer?
Que me desculpe o poeta, mas a indignação é fundamental. O terrorista odeia a beleza, mesmo fugaz, da pulsação da vida. Não há como perdoá-los. Eles sabem o que fazem. Fundamentalmente eles não suportam o pouco de liberdade que nos cabe neste mundo da mercadoria.