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Eu me vi

Crônica em tempos de crise aguda

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Ontem, ainda ontem, quando o vento trouxe de longe uma súbita umidade com cheiro de terra molhada, eu vi o menino correndo e quase chorei. De repente, estava grávido de mim.

Era de mim que saíam todos os que fui em algum momento: o menino, o adolescente, o jovem adulto, o quarentão e, por fim, o quase atual. Não vi o tempo. Eu vi a correnteza, a chuva, a bola, a vida passando num suave estremecimento, como um animal que se espreguiça ao sol antecipando na solidão uma carícia prometida.

      Passo a passo, sob as árvores, eu vi as sombras, o sol antes da chuva, a nuvem migrando sem pressa, a moça jogando o cabelo para trás, o velho subindo no ônibus, o policial passando a mão embaixo do olho esquerdo. Eu vi a cidade onde sempre andei. Eu vi o menino de cabelos curtos, o adolescente de cabelos longos, o jovem adulto de olhar altivo, o quarentão com a primeira ruga, o quase atual com um guarda-chuva. Menino, interessava-me a fantasia. Adolescente, as viagens que não fazia. Jovem adulto, as utopias. Quarentão, o mercado. Quase atual, a humanidade. Chega o tempo em que o passante descobre a sua condição de parte da eternidade.

      Eu vi dois jovens sentados numa praça. Um deles, era eu. O outro, um colega cujo nome se descolou do rosto, ficando na minha mente apenas a concretude da expressão: a certeza do futuro num sorriso angelical. De que falávamos? O que esperávamos? O que nos prometíamos? Para onde íamos? Quais seriam os nossos planos então? Eu vi a noite descendo com a suavidade de uma lembrança boa. O andar do cão amarelo era uma poesia. Eu vi um amigo atravessando a rua. Assim é que nos afastamos. Pronto, o sinal fechou. Ficam as marcas dos pés como pegadas de um pássaro à beira do rio.
      Olhei para todos os lados e me vi num cruzamento. Todos os que eu fui se encontravam na esquina e fundiam-se na imaginação. Eu vi o instante, o passado no seu momento, ouvi as vozes que compõem uma existência, o som das buzinas, o rufar dos tambores, a orquestra, o grito de gol. Contemplei os reflexos da luz nas poças de água, brinquei com as franjas do tempo e me disse: tudo passa. De onde me vem esse gosto pela evocação, essa liberdade diante do presente, esse desprezo pelos fatos do dia? O único fato é o dia. Quem já não viu o dia na sua complexidade feito um homem – menino, jovem, adulto, velho – cruzando a rua com sua sombra?

      Eu vi o menino jogando, vi o velho sonhando, vi a vida vagando feito um jornal com data, manchete, fotografia e linha de apoio. Havia pontes, portas, portos e terras novas para conquistar. Desde então nunca parei de servir: servo, serviço, servidão, serventia, serenidade. Eu me vi nessa multidão de pessoas a caminho do ser. Logo eu que muito quis ter e parecer. Eu que, na manhã nublada de outono, considerei vender raios de sol. Depois de ter visto tudo, com as narinas impregnadas do cheiro trazido pelo vento, entrei na padaria e pedi uma média com pão e manteiga. Em qual das minhas vidas aprendi essa expressão? Nalguma rápida escala.

Eu olhei pela janela e vi pessoas reunidas.

Elas se manifestavam em favor do corte de verbas para universidades públicas e de uma reforma da Previdência que vai obrigá-las a trabalhar mais tempo e a ganhar menos na aposentadoria.

Eu vim de um tempo em que manifestações eram sempre contra governos.