Juremir Machado da Silva

Eu vejo o arco-íris

Acordo ao amanhecer e saio pela casa em busca de um raio de sol. Acaricio o celular que me exibe suas mensagens como se fossem pães caseiros quentinhos para o café da manhã. Um leitor me chama de gênio. Outro, não menos categórico, me define como um escritorzinho medíocre. Abro a janela, recebo uma lufada de ar fresco e contemplo o esplendor da alvorada em sua rotina. Não posso deixar de comentar comigo: que obra-prima! Nuvens esparsas flutuam num céu mais azul do que certas turquesas de contemplação. Fulgurações douradas me fazem piscar.

Estou ali, estou aqui, lapido palavras com mãos que não se prestam ao paraíso. Desde criança que eu sinto esta vontade obsessiva de abraçar a eternidade com meios tão efêmeros. Não me envergonho de recorrer a todos os truques. Posso ir do grandiloquente ao comedido, do barroco ao minimalismo, da poesia ao discurso pedante, da aquarela ao painel maior do que minhas ilusões. Posso ser brega e chique, doce a amargo, rebarbativo e discreto, gongórico e banal. Já me acostumei a provocar reações passionais. Outro dia, recebi um insulto especial:

– O senhor não é gênio, não. Nem imbecil. É apenas mediano.

Respiro o ar do novo dia como se fosse o do primeiro e também o do último, esse ar fino que “penetra a alma com o frescor dos matos” e o perfume das mais raras incandescências, essas coisas que queimam em nossa imaginação deixando um rastro de bons aromas e de agridoces melancolias. Quem nunca sentiu prazer numa pequena tristeza com cheiro de goiaba ou de figo maduro? A cada texto eu me vejo correndo pelos campos da minha infância, menino e adulto, pássaro e pincel, potro e vaga-lume, tentando alcançar as cores do arco-íris para contá-las uma a uma sem o perigo de me confundir com tanta beleza e tanta nuança.

Nalgum momento da vida pensei em ser gênio como quem escolhe uma profissão. Em outro, aceitei ser medíocre como quem recebe um diagnóstico fatal ou descobre que só a natureza é obra de arte. Cheguei a desgostar da ideia de ser mediano, mas também me contentei com ela ao reler “Uma temporada no inferno”, do precoce Jean-Arthur. Hoje, quando contemplo o nascer ou o morrer do sol procuro capturar a essência da luz na travessia do inesquecível. Por mim, vivia só para olhar. Já não me enfureço, salvo quando me contradigo, nem busco refutar o que dizem sobre mim. Quem sou para saber quem tem razão?

Ainda agora era manhãzinha. O sol galopou no céu e já se pode sentir o peso do dia sobre os ombros dobrados pelos anos. O tempo passa com a impaciência dos jovens. No entanto, ele tem a paciência dos que se imaginam eternos para se acalmar depois das tempestades. Árvore e fruto, sombra e solidão, eu balanço como uma rede amarrada em dois troncos, o desejo e a resignação. O celular vomita mensagens como se tivesse sido inventado para me distrair do avanço das nuvens. Uma delas me faz sorrir e encontrar utilidade para o que sou e faço:

– Tenho 97 anos e ainda não sei o que é mais bonito, o nascer ou o por do sol? Poderia me ajudar com algumas boas frases sobre isso?