Evento cultural da Rede Baita Sol
Nada cresce em Palomas sem a autorização da Rede Baita Sol.
É uma sina.
Uma lei.
Uma verdade.
Minto.
Tudo aquilo que cresce em Palomas acaba sendo encampado pela Rede Baita Sol.
É batata.
Sim, batata também.
Qualquer plantinha independente que comece a se esparramar passa a ser cobiçada pela Rede Baita Sol.
Surgiu, faz alguns anos, um evento cultural em Palomas chamado Pensamentos sem Fronteiras.
Sabem como é, não?, Palomas fica pertinho do Uruguai. É um lugar pluralista, aberto a todos, mais folgado do que
bombacha de festa, coisa e tal.
Pensamentos sem Fronteiras começou com o apoio de uma grande empresa local, que era o orgulho dos palomenses.
Na verdade, surgiu por iniciativa de um visionário da região, homem de gosto universal.
Rapidamente Pensamentos sem Fronteiras se transformou num sucesso nacional. Só não ficou mais conhecido no país
inteiro por causa do provincianismo da mídia de Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo assim, teve muito espaço na Folha
de S. Paulo. Que eu me lembre, não saiu na Veja, pois não falava mal do Hugo Chávez, nem do PT, tampouco do Evo.
Nem sequer da Dilma Roussef.
Não falava mal nem bem.
Havia espaço para todos.
Era quase uma obra coletiva, com muita gente palpitando, sugerindo nomes e participando do evento.
A empresa patrocinadora foi vendida.
O novo dono surpreendeu a todos e manteve o evento.
Veio a crise financeira americana, que contaminou o mundo, embora não tenha passado de uma “marolinha” em Palomas
graças ao trabalho de um operário e de um banqueiro, um certo Polvo e um tal de Meiroles.
O novo patrocinador resolveu tirar o pé do acelerador. Faz sentido, ainda que o evento se beneficiasse das leis de
incentivo.
Os organizadores buscaram novos apoiadores.
Encontraram.
Mas quem estava lá, com seu instinto predador, com sua voracidade de piranha, com sua inclinação parasita, para
abocanhar também o filé? A Rede Baita Sol.
Os organizadores hesitaram um instantinho e caíram nos braços da baleia assassina. Faz parte do jogo. Sabem, a lei do
mercado, as dificuldades, o pragmatismo, etc?
Novos e velhos patrocinadores gostaram da ideia. Estão convencidos de que a Rede Baita Sol agrega valor.
Em Palomas, um velho filósofo chamado João Bodrilhardo, bom de tiradas, dizia que os meios, antigamente, existiam
para cobrir o acontecimento, mas, aos poucos, deixaram de se respeitar e passaram a tomar-se pelo acontecimento.
Coisas do João, que já se foi!
Pensamentos sem Fronteiras agora é da Rede Baita Sol. Começa na próxima segunda-feira. Em Palomas, o carnaval, o
futebol, o Natal, as corridas de auto, a virada do ano e até o show do fantasma do Teixerinha pertencem à matriz da Rede
Baita Sol. A Federação Palomense de Futebol não se atreve a propor um leilão com envelopes fechados para a
transmissão do Palomão. O presidente da FPF se acovarda. Acontece que Azulão e Vermelhão, os clubes de Palomas,
comem na mão da Rede Baita Sol, quando não devem dinheiro para ela. A Rede Baita Sol só dá sombra para quem ela
quer. Por que Pensamentos sem Fronteiras não pertenceria a ela também?
Em Palomas, todos dizem assim: C’est la vie!
Dizem que até o Cerro de Palomas acabará nas mãos da Rede Baita Sol. Eu não duvido de mais nada. Que coisa!