Chega de brincadeiras. Basta de umbilicalismo. O Brasil está transformado num ringue ideológico. O STF votou pela extradição de Cesare Battisti por ele ter sido um terrorista de esquerda. Que eu me lembre, o STF não perdeu o sono para expulsar o ditador paraguaio Stroessner, que morreu tranquilamente asilado em terras brasileiras. Mais do que isso, o STF aceitou o papel de órgão consultivo, o que ele não é, só para repassar a batata quente ao presidente da República. No jogo de xadrez dos poderes, cada um quer puxar o tapete do outro. Luiz Inácio está “esnucado”: ou desautoriza o seu ministro da Justiça, Tarso Genro, ou desautoriza o STF.
Assim vai a nave. E o PT, como sempre, quer controlar a imprensa. Não só o PT. Todo governo quer fazer isso. A forma mais fácil é através dos incentivos publicitários. Afinal, é dando que se recebe. No Rio Grande do Sul, a governadora Yeda Crusis está produzindo uma nova imagem de si mesma. O pior ficou para trás. O novo plano para o magistério, na prática, acaba com a relevância do tempo de serviço. As promoções seriam por “mérito”, com toda a subjetividade e todas as falácias que isso acarreta. Uma coisa deve mesmo acabar: a tal da licença-prêmio. Essa não tem explicação nem aqui nem em Marte. O plano acaba também com a ideia de piso, que deixaria de ser o salário inicial sobre o qual se aplicam as vantagens adquiridas por mérito e tempo e passaria a ser apenas o patamar abaixo do qual ninguém pode receber. Aqueles que estiverem abaixo desse mínimo, R$ 1500, receberão um abono. Quem estiver acima, fica como está.
Isso explica a mágica de um governo que se recusa a pagar o piso fixado por lei federal, de R$ 950, mas se propõe a pagar espontaneamente R$ 1500. Em bom português, o governo aceita que ninguém ganhe menos de R$ 1500, mas não aceita pagar um piso de R$ 950. Feitas as contas, pagar, ao menos, R$ 1500 para todos fica mais barato para o governo do que pagar um piso de R$ 950. Cabe ao magistério dizer se esse é um bom negócio para a categoria. Cabe ao governo não tentar vender gato por lebre. Seu plano até pode ser bom, embora não pareça tanto assim, mas não é piso. Basta de guerra semântica. O governo Yeda, assim como governo federal, está cansado de críticas. Em parte, tem razão, pois as provas definitivas de tudo o que foi dito a respeito do envolvimento da governadora nos escândalos de corrupção, do ponto de vista jurídico, não se consumaram. Em parte, obviamente, o julgamento político foi enterrado pelo desejo da maioria parlamentar de não investigar. Aqui e lá, em Porto Alegre e em Brasília, o jogo é o mesmo. A oposição quer CPI. A situação quer jogar terra em cima de CPI.
O ano de 2009 chega ao fim melancólico. Tudo se disse e nada se esclareceu. Tudo se jogou para cima e tudo foi sufocado. Porto Alegre dormiu sonhando com metrô e acordou sentada nos portais. A mídia amiga não para de trombetear o espetacular plano do governo gaúcho para o magistério, que tenta desesperadamente dizer que não o acha espetacular, mas é reduzido a pó sob a acusação de ideologismo e corporativismo. Quem tem o poder de falar e de patrocinar, sem dúvida, define o que é ideológico.