Fui a Livramento participar da Feira Binacional do Livro.
Tem sempre aquela coisa de voltar para casa.
Vera Machado, minha irmã, escritora e agitadora cultural da cidade, é uma das organizadoras do evento.
Carlos Urbim foi o patrono.
Tinha também patronos uruguaios, Thomas de Matos e Rafael Fischer.
Tivemos uma mesa muito interessante, geográfica e literariamente, no Parque Internacional, com escritores brasileiros, Urbim, eu e o santansese Zuil Pujol, e uruguaios, Matos e Fischer: dois sentados no Uruguai, dois sentados no Brasil, o Urbim no meio. Um passo para o lado e se mudava de país.
Ah, o Uruguai! Que belo país!
O Uruguai de Onetti, Benedetti, Enrique Amorim – La carreta é um dos mais belo livros que já li –, da celeste, dos tuparamos que me assuntaram a infância, de Artigas, Rivera e Lavalleja, caudilhos mais progressistas que os nossos Bento Gonçalves, Neto, Canabarro e outros.
Uruguai da linda, elegante e misteriosa Montevidéu.
Uruguai de Onetti.
"Tão triste como ela" é um lindo título para um maravilhoso livro.
Tudo isso na praça.
O Parque Internacional da fonte luminosa.
A Praça dos Cachorros sendo, enfim, liberada dos camelôs.
Urbim falando de pandorgas.
Todos nós falando de panchos calientes, de balas de mocotó, do velho Pinga e de um passado presente.
Pujol recitando Alceu Wamosy de memória.
Pobre poeta, morto em Livramento na revolução de 1923, casando-se antes do último suspiro para deixar sua pensão à noiva, que seria a viúva virgem.
Sarau no Parque cheio de livros.
Vez ou outra uma olhada para a banda oriental: vai chover?
Se armou para o lado do uruguaio, vem chuva.
Era o nosso centro de meteorologia.
Assim falava o meu avô.
O mesmo que, como seus contemporâneos, dizia: ovelha não é pra mato.
Meu avô conhecia o cego dormindo e o rengo sentado.
Rivera cheia de gente.
Comprei um perfume.
Comi um pastel de doce de leite.
Não tomei uma cerveja.
Li 200 páginas da História do Rio Grande do Sul de Mário Maestri na volta.
Ao meu lado, uma senhora roncava.
Atrás, uma senhora narrava cada avanço da viagem pelo telefone: "Já estamos no Batovi..."
Emocionante!
Comecei a ouvir no celular, pela Guaíba, o jogo do Inter.
Caiu a rede um segundo antes do primeiro gol do Flu.
Vi o restante do fiasco em casa.
Um livro com título de romance uruguaio: A vingança de Rafael Sóbis.