Fervor tecnológico
Palomas aderiu ao fervor tecnológico. É Palomas e o Vale do Silício. Dizem até que Steve Jobs anda pensando em comprar uma fazenda por lá. Só não o fez ainda por medo de uma invasão (ou ocupação) do MST. Na vila, só se fala em twitter, blogue, skype, facebook, orkut, myspace, microblog, mp3, mp4, mouse e outros nomezinhos assim. Outro dia, a velha Nésia, do alto dos seus 103 anos alimentados com mandioca e batata-doce, apareceu com uma ratoeira na mão e foi declarando sem que ninguém tivesse perguntado coisa alguma: “É para pegar uns mouses”. No campo teológico a coisa também pegou fogo. Os palomenses adoram hermenêutica e interpretação de textos.
– Discutir os desígnios de Deus é pecado, Zangão.
– Não, Atanásio. Deus nos deu liberdade de pensamento.
– Mas não para ficar pensando heresias.
– Não é heresia querer que Deus dê uma entrevista coletiva. É uma maneira de fazer Deus se comunicar por meio das tecnologias dos novos tempos. Afinal, as novidades tecnológicas são dons divinos para nosso uso.
– Mas coletiva de imprensa já é pedir demais.
– Bom, então, quem sabe uma mensagem no seu blogue.
– Deus não tem blogue, Zangão. Ele tem mais o que fazer.
– Ora, pode mandar alguém postar por ele.
– Chega, Zangão. Deus é muito ocupado.
– Por que não tem um twitter? São mensagens de apenas 140 caracteres. Ele poderia dizer coisas simples como “Eu estou aqui”. Ou “Estou de olho em vocês o tempo todo”.
– Deus não é um Big Brother nem radar móvel: não fica espionando as pessoas. Somos livres para agir.
– Mas tchê, a coisa ta feia, ta osco o traseiro da brasina. Precisamos de algum esclarecimento. É o Collor dizendo que vai votar na Dilma. É a Dilma querendo conciliação com Deus e todo mundo. Se duvidar, vai ter chapa com Dilma e Henrique Meirelles. Deus nos acuda.
– Qual o problema de uma chapa Dilma – Meirelles?
– A assaltante de bancos e o banqueiro!
– Deixa de se reacionário. Essa é a prova de que somos um país tolerante e de que aqui não tem luta de classes. O passado ficou para trás. É muito importante saber perdoar e apagar o que nos fez mal em algum momento da vida.
– É tolerância demais. Aí, vivente, até o santo desconfia. Além disso, o pessoal quer indenização. Deus bem que podia dar uma coletiva para nos mostrar o caminho, dar uma luz, indicar que isso tudo não é maquinação do capeta. Podia ser por skype mesmo.
– Deus não é o Obama. Não dá entrevistas coletivas.
– Pois é, aí quem leva o Nobel da Paz é o Obama.
– Chega de dizer besteiras. Deus não precisa de novas tecnologias para se expressar. Ele é a comunicação.
– Não sei. Que Deus me perdoe se eu estiver enchendo o saco, mas será que não está faltando um marqueteiro para Deus? Alguém que o ajude a cuidar da sua imagem nestes tempos pós-modernos. O silêncio poder uma boa estratégia. O problema é que com o bicho pegando dessa maneira, sem dó nem piedade, a gente fica querendo alguma informação privilegiada. E não vaza nada lá de cima. O Ministério Público e a Polícia Federal deviam fazer um estágio lá.
– Chega de blasfemar. Vamos atualizar nossos blogues.