Festa em família
Tem gente que sofre! Gente que sofre por ser antiga, deslocada, anacrônica. Gente que sofre por ser aristocracia decadente. Gente que sofre por ser novo rico. Gente que sofre por ser pobre para sempre. E gente que sofre por querer ser moderna demais, a ponto de ser modernosa. Há, por exemplo, homens e mulheres fashion ou cult que desprezam Dia dos Pais, Dia das Mães, Dia dos Namorados, Natal, Ano-novo e tudo mais que cheire a domingão em família. Mas acabam curtindo festa de bruxinha americana em shopping-center lotado. Nada de errado neste último caso. Cada um com os seus gostos e com as suas influências. O problema são as contradições.
Quando se aproxima o Natal é aquele sofrimento: com quem passar? Com os pais, com os sogros, sozinhos na montanha ou na praia? Fugir para a Europa? Esconder-se numa ilha? Em família tem o problema dos presentes. Que dar aos primos, aos tios, aos sobrinhos? Tem a chateação de receber meias, canetas, livros ruins e discos de música brega. Que fazer? Esquecer a família, esperar que o Congresso Nacional aprove uma lei abolindo datas festivas inconvenientes e familiares? Votar em deputados que se comprometam a lutar pelo fim do Dia dos Pais? Fazer lobby junto ao Vaticano pela supressão do Natal visto que é uma data aproximativa e não identifica rigorosamente o dia do nascimento de Jesus Cristo?
Nada disso. A mais moderna atitude é relaxar e gozar ou, como dizem os franceses, “faire avec”, aceitar o inevitável, descobrir a beleza da coisa, entrar no jogo, participar das emoções familiares com alegria, disponibilidade, boa vontade e senso de humor. Há sempre algo de tocante no apego a certas comemorações ainda que o comércio faça delas uma maneira de estimular o consumismo nem sempre tão barato assim. Não se costuma dar muita atenção ao que vem escrito num cartão de Natal. Porém, como diz o escritor DBC Pierre, não se imagina quanto tempo uma mãe gasta lendo aquelas letrinhas e aquelas frases todas até escolher a mensagem certa para um filho!
Festa de família pode derrapar, abrir cicatrizes mal curadas, tirar cadáveres dos armários, avivar conflitos e pôr fogo em guerras não declaradas. E daí? É preciso descobrir uma nova forma de convivência, gerar novos pontos de equilíbrio, construir uma nova “zona hachurada”. Lembram-se das aulas de teorias de conjuntos na escola? O professor desenhava um círculo e depois um segundo entrelaçado com o primeiro. A interface entre dois era coberta com riscos em diagonal e a isso se chamava “zona hachurada”. Creio que essa palavrinha só tinha essa serventia. Podemos, entretanto, dar-lhe um pouco mais de trabalho e designar com ela uma “zona achureada afetiva” capaz de informar a dimensão de nosso empenho e de nosso gosto em participar da vida familiar com suas festas, comemorações, datas e rituais de passagem.
Cada um pode perguntar ao outro: como anda a sua “zona hachurada”? Se quiserem, estabelecemos a fórmula de uma equação simples: z (zona hachurada) = n+sh2, sendo “n” o número de datas do calendário familiar e “sh” o grau de senso de humor de cada um. Quanto maior o número resultante, maior o grau de satisfação do conjunto em questão. Matematicamente falando essa equação é um absurdo, claro. Mas, como brincadeira, serve para indicar uma necessidade de revisar conceitos, de escapar aos engessamentos que transformam em dilemas ideológicos ou existenciais o que deveria ser apenas uma maneira de partilhar alguns momentos com os nossos.
Por que essas datas, desvirtuadas ou não pela sociedade de consumo, fazem sofrer? São elas sintomas de relações e de estruturas impregnadas por um mal-estar cada vez mais evidente? Traduzem algum tipo de rejeição à hipocrisia e à mercantilização da vida ou, ao contrário, revelam uma incapacidade crescente de viver em família, de ser tolerante, de conviver, de partilhar sentimentos, de ritualizar o mínimo indispensável do cotidiano?
Que fenômeno é esse de desprezo por certas festas que se reveste de sofisticação para, quem sabe, legitimar-se num estilo superior de prática social?
Certamente cada um pode estar pensando que tudo isso é um exagero, pois do Dia dos Pais ao Natal, passando pelo Dia dos Namorados, nada reúne mais gente, estimula mais o comércio e faz conviver as famílias.
O sucesso de tais comemorações aparece nos recordes de vendas batidos pelo comércio a cada ano e pelas tantas viagens feitas para estar em casa numa dessas tantas datas. Ainda assim, em paralelo, cresce um ranger de dentes que revela um desconforto digno de atenção.
Apenas outro estilo de vida, menos familiar e mais livre, equivalente a todos os outros? Ou uma necessidade premente de fazer um balanço e de reaprender a jogar o jogo social com carinho, leveza e bom humor?
Cartas de apoio ao Papai Noel.
(crônica de fim de ano publicada em Aprender a (vi)ver)
Feliz 2010!