Fim de jogo
No último domingo, às 17 horas, fui ao teatro. É assim que eu gosto: de repente. Quando todos me esperam num lugar, apareço no outro. Adoro surpreender. Principalmente quando é possível ver uma peça encenada em segredo, em lugar que somente pode ser conhecido alguns minutos antes do início. Vi uma das peças mais bem ensaiadas da minha vida. Um espetáculo dramático intitulado “Fim de jogo”. Fiquei fascinado pelo suspense criado. Obra de gênio. Coisa de louco. Fantástico. Tudo na encenação era preciso, justo, bem encaixado. Em alguns momentos, especialmente nos últimos minutos, parecia um balé. Cada passo era coreográfico. Um crítico de mau humor poderia, quem sabe, dizer que alguns gestos eram gratuitos. Discordo. Deles também dependia o resultado, que foi o esperado, mas como se fosse inesperado. Uau!
“Fim de jogo” faz parte do teatro do absurdo. Entre os grandes dramaturgos do teatro do absurdo estão Ionesco, cujas peças são encenadas há 50 anos no Teatro de La Huchette, em Paris, e Samuel Beckett. Em “Fim de jogo”, Beckett leva o absurdo ao extremo. Parece que uma vez, na China, para aumentar o absurdo da encenação o diretor substituiu praticamente todos os atores titulares algumas horas antes do começo do espetáculo. Colocou reservas em cena, alguns que jamais haviam atuado juntos. Todo mundo protestou. Houve quem denunciasse um fracasso estrondoso. A direção da casa justificou-se com frases ambíguas do tipo “temos a nossa dignidade a defender”.
O teatro do absurdo costuma mostrar o quanto há de paranoia em nossas expectativas sobre as coisas. No futebol, para explicar melhor a quem não está habituado com o teatro, muita gente vive dizendo que certos clubes são beneficiados pela arbitragem. Os especialistas garantem que isso é mito. Os erros não passariam de erros. Na encenação que vi de “Fim de jogo” um ator comete uma infração grave pela segunda vez (é uma situação que inexiste no original, mas os diretores adoram acrescentar “cacos”). Normalmente seria expulso. Não o foi. Os comentaristas, quer dizer, os críticos murmuraram uma ou duas justificativas esfarrapadas e tocaram em frente. Luiz Telles da Silva resumiu “Fim de jogo” (também traduzido como “Fim de partida”) assim: “O cenário consiste de apenas uma peça pequena, praticamente isolada do exterior onde parece não haver mais vida. O contato com o exterior é apenas visual, através de duas janelas, colocadas ao alto de paredes opostas, alcançadas apenas com o auxílio de uma escada. E para avistar a paisagem é preciso de uma luneta. Não seria um absurdo se fosse uma prisão, mas trata-se de uma casa de família. Alude-se a uma cozinha onde reina um rato!” Viram?
Pode-se também ambientar a peça num estádio de futebol. Tudo é possível no teatro do absurdo. A questão de fundo é a ética. Ou não? Nunca se sabe. Em Porto Alegre, “Fim de jogo” já foi montada por Luiz Paulo Vasconcellos. Ao chegar em casa, soube que o Flamengo era o novo campeão brasileiro. Que absurdo! Será que eu sonhei tudo isso? Ou terá sido um pesadelo dominical?