Final de semana no Canela +
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Final de semana no Canela +

Evento reuniu escritores na Serra gaúcha

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Passei o último final de semana imerso num evento muito bacana, o Canela +, na bela cidade de Canela. Participaram da imersão na Fundação Cultural Nydia Guimarães professores, jornalistas e escritores como Annete Baldi, Gabriela Cerqueira, Marlon Ramos, Rubem Penz, Lélia Almeida, Pedro Gonzaga, Taiasmin Ohnmacht, Luísa Geisler, Henrique Schneider, Cagê Lisboa, Sergius Gonzaga, Altair Martins, Aírton Ortiz, Fernanda Bastos, Atena Beauvoir, Zeca Britto, João Armando Nicotti, Enio Martins, os editores do Literatura RS – Vítor Diel e Giovani Urio – e o Luiz Mauricio Azevedo. A mesa de Luiz Maurício e Nicotti sobre a negritude de Machado de Assis foi ótima, assim como a de Taiasmin Ohnmacht, Fernanda Bastos e Marlons Ramos sobre literaturas negras. O mesmo pode ser dito da mesa sobre mulheres na literatura. E de tudo.

      Teve exibição dos filmes Legalidade e Bacurau. A coisa rolou até duas da manhã. O Fernando, organizador do evento, sem fazer alarde, botou um belo encontro na rua. De quebra, uma exposição de livros raros, com primeiras edições ou exemplares autografados por autores como um certo Fernando Pessoa, parte do acervo impressionante do professor Nicotti. Eu nunca tinha ouvido Nicotti falar. Ele conhece tudo de literatura russa. Domina a cultura e a língua russas como quem fala tchê e barbaridade. Espantou a todos nós com suas pronúncias de conhecedor do riscado: “Dastaieviski”, “Talstai”, “Baris”. Explicou: “Em russo, o ‘o’ tônico pronuncia-se como a”. Ficamos todos um pouquinho mais cultos.

      Claro que nunca teremos coragem de dizer “Dastaieviski”. Precisa bala na agulha para isso. Nunca se perde viagem quando se encontra o Sergius Gonzaga. Ele conta histórias como quem encanta serpentes. Faz parte de um grupo de “causeurs” que tinha em Décio Freitas a figura culminante. É um pessoal que jamais sai de casa sem uma tese para despesas de conversação. Pela primeira vez, falei, numa mesa sobre censura nas artes, com Henrique Schneider e Luís Geisler, numa feirinha ecológica. Ambiente cool, descontraído, verdejante. A Luísa está fazendo muito sucesso com seu livro “Enfim, capivaras”. Paramos para ele tirar uma foto com o livro sob o pórtico de Nova Hartz, onde foi proibida de participar da Feira do Livro por interferência de um vereador, que encontrou palavrões no texto, coisas terríveis nestes tempos tão puros.

      Eu que não sou fã de risotos, comi o melhor risoto da minha vida, castanhas com abóbora, no restaurante Container. Não é propaganda. É justiça. Como não se sentir bem, numa atmosfera com aura, quando se fica hospedado numa pousada, Encantos da Terra, da Tânia, filha do mítico narrador de futebol da Rádio Guaíba, Pedro Carneiro Pereira? Eu tinha 11 anos quando ele morreu num acidente de automobilismo e não esqueci. Isso é o que se chama de imaginário. No centro de Canela, um homem sorriu para mim. E disparou: “Pensei que estavas morando na Venezuela”. Só três passos depois é que pensei em responder: “Não, no Chile de Pinochet”.

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Na foto, com Zeca Britto, diretor de Legalidade.