Flanando pelas ruas de Paris
Acabo de voltar de um longo passeio pelas ruas de Paris.
Está frio.
Mas quando o vento para de soprar, fica bom.
Fui ver meus vizinhos em Montparnasse.
A loura Dora estava lá, cuidando do jardim, como faz nos últimos 30 anos.
Os jornais falam um pouco de Saramago, sem veneração nem desrespeito.
Registram que o escritor morreu comunista e ateu.
Contam que ele descobriu tardiamente o seu estilo.
Lembram que ele sempre foi um tanto ranzinza.
Destacam suas polêmicas e seus exageros, entre os quais o fato de ter equiparado a ação de Israel contra os palestinos ao holocausto.
Comparam-no a Lobos Antunes, que preferem abertamente.
Enfim, quase tudo o que eu disse no Correio do Povo de sábado.
Falam, nas suas capas, do caso Anelka, o jogador da seleção francesa que insultou o técnico e foi cortado.
L’Équipe colocou na sua capa de sábado a frase de Anelka: "Va te faire enculer, sale fils de pute".
Alguém vazou o insulto para a imprensa, que está em guerra com o treinador francês.
Até parece o Brasil.
Só que no Brasil tudo é abafado. Ou os nossos jogadores, submissos, engolem seus insultos.
Os jornais repercutem o Estatuto da Igualdade Racial, recém-aprovado no Brasil.
Metem o pau no conservadorismo do documento e no fato de o relator ter sido um branco representante do pior da direita brasileira.
A mídia francesa não é um condomínio das opiniões de direita.
O pau come.
Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, parte da mídia quer linchar Sócrates por ele ter jogado um tijolo na vidraça gaudéria. Nossos formadores de opinião dizem que o Rio Grande do Sul é diferenciado.
Que significa isso?
Que é melhor. Essa é a maneira dissimulada para dizer que somos superiores.
Cada Estado é diferenciado.
Cada Estado tem suas especificidades.
A especificidade do Rio Grande do Sul é cultuar o passado.
A França fez a mais importante revolução da história, a de 1789, que mudou o mundo.
Mas ninguém passa o ano, ou uma semana em julho, vestido de francês do século XVIII.
Vou sair para tomar um vinho. Vou ficar contemplando a rua.
Virei fã de Anelka: nada como a franqueza de vez em quando.
Claro que é melhor ser franco com arte.
Na falta de ironia, Anelka foi grosso.
Como era Saramago com tudo aquilo que ele detestava.
Salvo quando era irônico ou genial, o que nem sempre acontecia.
A morte de um homem franco deve provocar comentários francos.
O resto é devoção piegas. Ou seja, a conversa fiada de sempre dos idólatras, dos fãs radicais e dos que fazem tietagem como forma de parecer diferenciados.
O vinho me espera.
De repente, peço asilo.