Juremir Machado da Silva

Franceses dançam no acampamento farroupilha

Fomos, ontem, terça-feira, pelas onze horas da noite, dançar no acampamento farroupilha.

Cláudia e eu levamos o italiano Fabio La Rocca e os franceses Michel Maffesoli, Philippe Joron e Dominique Wolton para bailar.

Fomos acompanhados pela gaúcha Denise.

A turma arrastou pé no fandango.

Joron mostrou que sabe seguir o ritmo de uma sanfona.

Estivemos em, pelo menos, três piquetes.

Quando Maffesoli quis ir no banheiro químico de um galpão, o responsável disse:

– Tem banheiro público lá adiante. Aqui, não pode.

– Mas ele é francês – eu falei.

– Ah, se é francês, pode.

Deixou entrar e pediu para tirar foto com todo mundo.

Fomos muito bem recebidos pela gauchada.

Maffesoli queria ficar mais tempo.

 

Tirou Cláudia para dançar e não queria parar.



Michel revelou grandes qualidades no arrasta pé.

Ficou deslumbrado com o acampamento.

Viu a comprovação das suas ideias sobre o prazer da vibração em comum, da comunhão de espíritos e de corpos, da alegria do estar-junto, da relação fraternal que emociona.

Considerou o acampamento farroupilha como uma expressão da pós-modernidade: a sintonia entre o contemporâneo – a tecnologia – e o arcaico (o sentimento, o primordial).

Curtiu.

Prometeu voltar.

Vibrou.

 

Até eu caí no baile.

Dominique achou que era a turma do Jean-Marie Le Pen, a extrema-direita francesa.

Quando, porém, por falta de pares femininos, de brincadeira, Philippe e Dominique ensaiaram alguns passos de dança juntos, o patrão do piquete se adiantou e, de cara feia, avisou:

– Homem com homem, aqui, não.

Cruzou os braços e esperou que a ordem "natural" fosse restabelecida.

O pessoal tratou de obedecer.

Noutro baile, o patrão pediu que ninguém dançasse de faca na cintura.

Os estrangeiros acharam a ideia bastante razoável.

Eu diria, civilizada.

O acampamento farroupilha foi a grande atração da noite.

Eta gauchada macanuda.