Economia de frases
Na falta do que fazer, eu continuo me deliciando com capítulos diários do livro “O pior emprego do mundo – 14 ministros da Fazenda revelam como tomaram as decisões que mudaram o Brasil e mexeram no seu bolso” (Planeta), de Thomas Traumann. Se as discussões econômicas parecem esotéricas, as frases de economistas colecionadas pelo autor são ótimas. No capítulo de hoje, Fernando Henrique Cardoso e seus acadêmicos nota dez.
FCH juntou Pedro Malan, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco, Gustavo Loyola, Chico Lopes, Edmar Bacha, os irmãos Mendonça de Barros e José Serra. Eles trataram de produzir muita frase boa e de efeito. Às vezes, efeito perverso. O rei das frases sempre foi Gustavo Franco, que dirigiu o Banco Central e bancou o câmbio fixo responsável pela supervalorização do real em relação ao dólar, odiado pela maioria dos seus colegas, especialmente por José Serra. Franco criou a lei Sauer-Setúbal para debochar respectivamente de Ildo Sauer, presidente da Volkswagen, e Laerte Setúbal, da Associação dos Exportadores Brasileiros: “Qualquer que seja a taxa de câmbio, ela sempre estará defasada em 30%”. Entendeu?
É piada de economista. Ri-se com desconto ou viés para baixo. Franco criou também a lei Serra: “Quando a defasagem cambial for resultado das forças do mercado, ela será designada populismo cambial”. Eles riam que se matavam dessas tiradas. Esta, porém, todos podemos entender. Quando perguntaram a Gustavo Franco se ele tinha lido Karl Marx, obteve-se esta resposta: “Estudei bastante Marx quando criança. O sujeito não precisa ser especialista em Marx para entender de economia. Talvez, pelo contrário”. Está na moda. Gustavo Loyola, antecessor de Franco no Banco do Brasil, e Pedro Malan, ministro da Fazenda por oito anos, dividiam a mesma frase: “No Brasil, não é só o futuro que é incerto. O passado também é imprevisível”.
Valem também citações de estrangeiros. Bela sacada de John Kenneth Galbraith: “A única função das previsões econômicas é fazer a astrologia parecer respeitável”. Malan recorria a uma frase certeira para acalmar seus funcionários: “Pense só, podia ser muito pior, a Indonésia tem 17 mil ilhas e o Brasil tem só 5.568 municípios”. Pode-se chamar isso de método Malan. O professor FHC tentava controlar seus pupilos: “Vou precisar retomar um diálogo com a nação, porque não podemos deixar que essas brigas de cambio, uma bobagem intelectual entre um e outro, ganhem tanto importância”.
A turma era animada. A frase mais realista, porém, foi pronunciada por Delfim Netto quando o Brasil precisou adotar novas medidas cambiais e bancos bem-informados ganharam milhões antecipando-se aos fatos: “As mesmas pessoas de sempre souberam antes. Todo mundo no mercado sabe do que estou falando”. Cabeças rolariam. Ganhar uma discussão exigia perseverança, principal qualidade de Pedro Malan na definição de FHC: “Ele nunca eleva a voz, sempre sorri, sempre é extremamente cortês, e sempre mantém exatamente a posição com que iniciou a negociação”. Nunca se produziu tanta frase boa.