Freud e os malas
Por ocasião dos 150 anos do seu nascimento, Sigmund Freud percebeu que já era tempo de atualizar as suas idéias sem recorrer aos porta-vozes de sempre.
Afinal, nem tudo saiu como ele havia previsto.
Antes de manifestar-se, no entanto, leu várias pesquisas e, graças à sua refinada capacidade de observação científica, descobriu que o sul da América do Sul, de Palomas a Buenos Aires, passando por Porto Alegre, tem dois pontos que chamam a atenção do universo: a mais alta concentração demográfica de psicanalistas no mundo e o maior número de copas de mundo de futebol conquistadas, oito, em 16 disputadas.
Freud tinha certeza de que havia uma relação entre esses dois aspectos, mas não sabia qual. Talvez fosse sexual.
Depois de examinar detidamente as obras dos seus seguidores, especialmente as de Jacques Lacan e de Gumercindo, o oráculo, optou pelo mais notável palomense.
Ainda mais que precisava de alguém vivo e com poderes sobrenaturais.
O oráculo recebeu Freud, ao pé do Cerro de Palomas, sem surpresa.
Ofereceu-lhe um mate bem cevado.
O criador da psicanálise, antes de chupar o amargo, tentou mexer na bomba.
Quase levou um tapa na orelha: “Chupa sem agarrar, índio velho”, berrou o oráculo.
Freud, embaraçado, justificou-se: “Só estava tentando examinar esse autêntico objeto transicional, senhor”.
O oráculo soltou uma cuspida de fumo mascado e rejeitou o conceito com firmeza: “Faca, meu! Nem objeto transicional nem transnacional. Isso é só a bomba mesmo”.
Freud sorriu, um sorrisinho de freudiano.
O oráculo cuspiu de novo.
“Bueno, índio velho, a que devo a visita?”, perguntou, alisando a faca na cintura.
Freud foi direto ao assunto.
Queria aproveitar que a imprensa não parava de falar dele para corrigir alguns tópicos fundamentais da sua teoria. Primeiro: o complexo de Édipo seria uma visão machista.
Esquecera-se de falar do menino que disputa com a mãe o amor do pai.
O oráculo não se conteve: “Bueno, índio velho, esse deve ser o complexo de ‘boloia’, não é mesmo?”
Freud lamentou não ter previsto a emergência dos metrossexuais, do funk carioca e da mídia.
Aproveitou, então, para entrar na correção mais importante: o sexo não seria determinante.
O oráculo coçou automaticamente o saco, no que poderia ser considerado um simples reflexo ou, digamos assim, um “lapso escrotal”, e espichou os beiços. Freud explicou: “O mais importante é o futebol”. Gumercindo encrespou-se: “Mas a bola não é um objeto transicional por natureza, índio velho?”
Freud pareceu meio em dúvida. Levantou-se, alisou um pelego vermelho, muito bom para forrar um divã, e, depois de alguns instante de reflexão, disse: “Não, amigo. O futebol é transexual. A psicanálise está morta”.
Guma nem tentou acompanhar a explicação.
Encilhou sem demora o seu zaino faceiro e uma eguinha baia de arrastar água da cacimba para o Freud.
Ainda ajudou o gringo a alçar a perna.
Foram-se a trote, conversando sobre Lacan. Comentário de Freud: “Não entendi uma só linha”. Menos de quinze minutos depois, chegaram numa mangueira onde a gauchada estava metida numa marcação. Era uma de castrar os bichos e jogar as bolas num fogo de chão para assar no meio das cinzas.
Volta e meia, um taura com jeito de deus grego lambuzava os bigodes fartos comendo os bagos da boiada.
Não há como descrever o brilho dos olhos do pai da psicanálise. Freud caiu de quatro. Espíritos são poliglotas.
Freud, sem se apresentar, interpelou um peão: “Como o senhor explica esse costume?” O gauchão riu: “A la pucha, seu, mas isso só quem explica é Freud”. O gringo não resistiu à tentação: fartou-se comendo bola de touro. Antes de partir, chupou outro amargo, sem tocar na bomba, embora tenso, como se estivesse à beira de um orgasmo, e soltou uma frase enigmática: “Agora, eu entendo a América do Sul”. O oráculo deu-lhe uma puxada no saco com uma previsão: “Ainda vamos festejar os 300 anos do seu nascimento, seu Freud”. Voltaram ao tranquinho para a casa de Gumercindo. Novamente ao pé do cerro de Palomas, ao cair da tarde, depois de uma boa lagarteada comendo bergamota, Freud despediu-se do oráculo com uma declaração bombástica: “O senhor salvou a psicanálise”. Foi a vez de Guma ser enigmático: “É como eu sempre digo, índio velho, o buraco é sempre mais embaixo”.
Quase se retirando, Freud virou-se e perguntou:
– O que é uma mala?
– É um fenômeno que só vai se espraiar nos próximos anos.