Juremir Machado da Silva

Fui detonado pela Falha de S. Paulo

Fui detonado pela Falha de S. Paulo

Escrever todos os dias é a melhor coisas que existe.
O texto fica melhor.
Por mim, escreveria oito vezes por dia.
Especialmente sobre mim.
E sobre a Luciana Genro.
O eu é um holograma do mundo.
A parte está no todo, que está na parte, ja dizia Pascal.
E Edgar Morin.
Na França, falar de si mesmo é um gênero literário nobre.
Começou com Montaigne, passou por Rousseau, segue com Houellebecq.
Eu falo de mim.
Mas não é de mim que falo.
Falo do mundo a partir de mim.
Quando falo da minha próstata, é qualquer homem falando com sua próstata.
Quem não gosta disso, tem uma coisa inteligente a fazer: não me ler.
Ninguém é obrigado.
Vou falar de mim.
Saiu uma resenha do meu romance “1930: águas da revolução” na Folha de S. Paulo do domingo passado.
Como não poderia deixar de ser, fui detonado.
Fiquei feliz.
Adoro ser torpedeado pela imprensa paulista e carioca.
Mauricio Puls, que assina o texto, sustenta que há História demais em meu livro. Acontece que meu livro é um romance de não-ficção. Uau! Segundo ele, a História não se presta à forma romance. É um clichê. Coisa de quem quer julgar o presente com o passado, o novo com o velho, a ousadia com a prudência. Papo de resenhista afetado.
Uma idiotice.
Minha proposta estética, não percebida pela sutil analista, é justamente o oposto: a História é a forma romanesca por excelência, a derradeira, a única que ainda atrai de fato os leitores.
Adoro andar na contramão.
Maurício Puls é formado em sociologia pela USP.
Cita Lukács e Aristóteles. Sempre que alguém vem com o marxista heterodoxo e mala Lukács, eu exclamo sofisticadamente: “Já se foi o boi com a corda e a égua com os arreios”. Digo, como palomense, “arelhos”.
É sempre assim. Minhas qualidades viram defeitos. Fico deslumbrado. Puls quer unidade. Eu busco a fragmentação.
A unidade romanesca é uma concepção superada, anacrônica, aristotélica, chata.
A vida é fragmentada.
Puls critica o fato de a pequena história andar em paralelo com a grande História. Eu digo apenas isto: a vida é assim. Puls lamenta que não haja explicação para a impulsividade de João Neves e para a prudência de Getúlio.
Eu digo categoricamente: não há explicação para a personalidade de cada um. Eles eram assim, foram assim, eis o delicioso mistério das suas mentes. Getúlio ponderava. João Neves bufava.
Puls acha aristotelicamente que o romance deve contar o que poderia ter sido.
Eu conto o que quase certamente foi. Não faço romance histórico. Apresento a História como romance.
Poderia tirar a palavra “romance” da capa do meu livro e tudo continuaria igual, exatamente como foi, uma narrativa. Mas seria menos divertido. Esteticamente menos saboroso.
Puls acha que não ficou explicada a razão de ter surgido uma revolução social de uma revolução de elites.
Eu tenho certeza de que a explicação está no livro: os homens contam na História, não só as estruturas.
Getúlio era o homem certo numa hora inesperada ou o homem inesperado na hora certa. Percebeu que estavam dadas as condições para dar o pulo do gato. O gato era ele. Puls tenta me elogiar no começo. Destaca que o grande historiador Boris Fausto me citou como fonte para seu último livro sobre Getúlio. Adoro essa condescendência paulista, uspiana, umbilical. Não me emociono. Formado na Sorbonne, vejo a USP lá de cima.
Sou muito nojento, narcisista, megalomaníaco, insuportável. Não aceito críticas. Meu melhor resenhista sou eu mesmo. Pensei em enviar um e-mail para Mauricio Puls. Só achei um link embaixo da sua resenha para comunicar erros. Lasquei: “Essa resenha é um erro. Sou criticado por ter escolhido uma forma inadequada para a ficção num romance de não-ficção”. Apaguei. Ele não iria compreender mesmo. É um moderno. Eu sou pós, hiper e neo-pós-hipermoderno. Cavaleiro solitário na noite do romance. Só quem tem mais de 80 anos ou menos de 20 pode me entender.
É vanguarda. A modernidade é a retaguarda.
Mais retaguarda do que isso só a Falha de S. Paulo.
Ou se achar fashion por ler a Ilustríssima.
Os jornais cariocas e paulistas são provincianos.
Acreditam nos seus ídolos como devotos.
Fazem assessoria de imprensa das grandes editorias.
A Folha falou de meu livro sobre 1930 (Record) e do livro de Moacyr Scliar (Cia das Letras).
Por que não falou também do livro de Sinval Mendina, "A batalha de Porto Alegre"?
Porque saiu pela pequena Martins Livreiro de Porto Alegre.
Puls achou o romance de Scliar mais convincente.
Lindo paradoxo.
A realidade (História) é sempre menos convincente do que a ficção.
Minha conclusão é terrivelmente sofisticada (meus critícos dirão ressentida): todo crítico litérario brasileiro tem forte propensão a ser um idiota de plantão aplicando sua matriz retrógrada como se fosse uma novidade.
Sou adepto de bateu, levou.
É pau, é pedra.
É o fim da crítica.
Adoro falar de mim mesmo.
É o único assunto do qual realmente entendo.
Quem não gostar disso que me esqueça.
Ah, essas criticazinhas não fazem nem cócegas. Quer dizer, "coscas".
Mas me permitem inventar boas polêmicas.
Levantem a bola que eu chuto.
Sou craque nisso.